—A sua honra não soffre nada com isso, e a minha dignidade exalta-se. Cumpro um dever de consciencia e do coração.

O tio Alameda ficou pensativo por alguns momentos; depois, placidamente, disse:

—Mas consta-me que ha dias, de noite, espancaste um homem que passava ás onze horas á porta d'essa rapariga. Foi verdade?

—Foi verdade. Como vissem que eu não desistia do meu proposito, quizeram lançar sobre ella nova affronta e fazer com que eu duvidasse da sua honestidade. Para confirmarem o que dizem, fizeram com que um individuo, ou mais do que um, fosse por horas mortas bater á porta de Maria Luiza. Eu todas{82} as noites lá vou, e ella preveniu-me de que, depois de eu sair, hade haver uns dez dias, tinham lá ido bater de mansinho á porta. Espreitei no dia seguinte, mas não vi ninguem. Não fiz mais caso, e passados cinco dias voltaram lá. Eu então, nessa tal noite—foi na vespera de Natal—fui pôr-me de novo á espreita. Passado muito tempo, um embuçado approximou-se, muito cautelloso, e bateu devagar tres pancadas. Ia já a retirar-se, talvez por me não ter visto sair e receando que eu estivesse a espreital-o, mas ainda lhe pude dar uma bastonada, que é para lá não tornar.

—Fizeste mal, filho. Não te devias precipitar d'essa maneira. Isso pode ser-te fatal, porque por vingança, esse homem pode fazer-te peor. Se te certificaste da má intenção d'esse homem e confiavas na seriedade da Maria Luiza, devias deixar correr. Não ha nada melhor que entregarmos certas coisas ao desprezo. As más linguas chegam a cançar-se, e lá vem um dia em que a maledicencia cede o logar ao arrependimento; porque a verdade é como o sol que dissipa as trevas mais espessas. Precipitaste-te, e agora és censurado e tido como desordeiro, e isso é muito penoso para um coração de pae. Dá tempo ao tempo, é um dictado muito antigo; porque atraz da tempestade vem a bonança.

E quando, convencidos da verdade, toda essa gente se calar, faz então o que a tua razão e o coração te aconselharem. Não sou como muitos paes que, possuindo dois palmos de terra, querem que seus filhos casem com quem tenha outro tanto. Não. Eu quero que meus filhos vivam contentes e felizes; e a felicidade não se alcança com a riqueza.

—Obrigado, meu pae! disse João com os olhos marejados de lagrimas, radiante de alegria e ao{83} mesmo tempo commovido. Obrigado pelos bons conselhos que acaba de dar-me e que eu observarei, e pela maneira como attendeu ás minhas supplicas, ainda que outra coisa não esperava da sua bondade!

E, apoderando-se das mãos de seu pae, beijou-lh'as com soffreguidão.

O tio Alameda retirou-se commovido occultando ao filho duas lagrimas que lhe bailavam nos olhos.{84}

[VIII]