O velho, commovido e silencioso, sentou-se num banco; e o filho continuou, com um olhar firme em que transparecia toda a verdade das suas palavras:

—Meu pae lembra-se d'aquella noite, em outubro, quando fizemos a nossa ultima desfolhada em que todos os que nella tomaram parte se divertiram, e quando eu, nas minhas cantigas, fiz uma referencia inoffensiva á Maria Luiza? As amigas d'ella, as quaes de amigas só tinham o nome, riram-se do pouco sangue-frio com que ella ficou ao ouvir a cantiga. Troçaram-na muito, e eu então, quando encontrei uma espiga de milho vermelho, tratei de recompensal-a e ao mesmo tempo castigar as trocistas. Prometti correr a roda, dando um abraço a cada uma, como é costume. Abracei, porém, a Maria Luiza, e sentei-me. Ficaram todas, como se costuma dizer, achatadas, mas eu levei tudo a rir. Pois foi isso o bastante para essas linguas damnadas começarem a levantar falsos testemunhos á pobre rapariga, cuja reputação foi maltratada; porque, a sua honestidade, tomaram muitas dellas possuil-a! Pensavam talvez que eu me deixava levar por esses zumbidos de varejeiras! Mas enganaram-se! Porque eu, que conheço{80} ha muito a Maria Luiza e sei que o seu porte foi sempre honesto, não me deixei levar por cantigas d'essas invejosas que nunca tiveram nada que dizer d'ella senão depois d'essa occasião!

«Continuei a estimal-a, e mais ainda que antigamente. Confortava-a quando a via, e a tristeza da rapariga, antes tão alegre, impressou-me muito. Contava-me as suas desditas, e eu comecei a sentir cá dentro uma certa necessidade de a vêr todos os dias para a animar, e, quando fallava com ella, sentia-me mais satisfeito. Disse-me que nenhuma casa a recebia onde pudesse ganhar o sustento para si e para sua mãe que já não podia trabalhar pura viver; e quando, com as lagrimas nos olhos, ella me disse que se via na necessidade de abandonar esta terra para procurar outra onde pudesse trabalhar para ganhar o sustento para as duas, eu, meu pae, senti dentro do meu peito não sei o quê que me fez humedecer os olhos, e disse-lhe que não se apoquentasse, que eu olharia por ellas.

«Agora, meu pae, é occasião de eu lhe fazer uma declaração, que ha muito desejava fazer-lhe, mas...—e ao mesmo tempo pedir-lhe perdão do meu procedimento:—eu, todos os sabbados, tenho tirado do celleiro tres alqueires de milho que lhe entrego para ellas, com o producto, não morrerem á fome... Perdôe-me, meu pae, e consinta que continue a soccorrer aquellas infelizes com o pão de cada dia!

O velho envolveu o filho num olhar de ternura, e, suspirando satisfeito, disse:

—Perdôo-te, porque praticaste uma obra de caridade, o que, comtudo, não devias ter feito, sem m'o participares. Essa franqueza devial-a ter tido ha mais tempo para commigo, que me não opporia{81} a isso. Mas tambem é preciso que uma pessôa não se deixe levar só pela bondade do seu coração, que muitas vezes nos não deixa vêr certas coisas que... Emfim, é preciso sempre raciocinar e vêr...

—Meu pae! A Maria Luiza é honesta!—interrompeu o filho com vehemencia. Essa rapariga padece por minha causa; e por isso tenho a obrigação de a defender da desgraça que a ameaça. E digo-lhe mais ainda, meu pae: a minha estima por ella converteu-se em amôr, e este em paixão. A minha resolução é salvál-a por completo da deshonra com que quizeram maltratal-a!

—Que dizes?! Pois tu queres...

—Quero casar com ella, meu pae. A Maria Luiza está innocente, ia jurál-o pelas cinzas de minha mãe. É uma victima das linguas invejosas.

—Já te disse, filho, que ha coisas que o nosso bom coração encara debaixo d'um aspecto e a razão debaixo d'outro. Não me opponho a nenhum casamento que meus filhos queiram fazer, mas o que eu quero é a minha honra acima de tudo...