—O erro que pratico?! E que erro é esse, meu pae?
—Praticas o erro de dar, sem necessidade que fallar ao mundo. Ora eu, que tenho de dar contas a Deus dos bons ou maus conselhos que dei aos filhos, quero prevenir-te de que andas por máu caminho. Muda de vida, filho da minha alma, se queres dar-me alguma felicidade no fim da minha velhice!
—Meu pae: sei ao que se refere, disse elle, com os olhos humildes no chão. Pois isso são contos do mundo, que...
—Mas o mundo é o grande juiz dos nossos actos, e o escandalo é um grande peccado!
João levantou resignado os olhos para o pae, e disse:
—Não me importa o que diz o mundo, porque tenho a consciencia tranquilla e a convicção de proceder bem. Diga-me, pae: se uma pessôa, por sua causa, se visse desprezada de toda a gente e na maior indigencia porque ninguem lhe dava um pedaço de pão a ganhar, o meu pae, que tinha sido o causador de toda aquella desgraça, o que fazia?{79}
—Soccorria-a...
—E não lhe importava o mundo, com a sua má lingua?
—Mas que relação tem isso com o caso de que se trata?
—É exatamente a mesma coisa. Oiça-me, meu pae, porque vou fallar-lhe com o coração nas mãos. Pela alma de minha mãe, d'essa santa a quem eu tanto queria e cuja memoria para mim é sagrada e a quem meu pae idolatrava, acredite as minhas palavras, porque vou expôr-lhe toda a verdade.