Nas horas de angustia, quando uma nuvem me obscurece o horisonte, percorro com o pensamento esses caminhos silvestres por onde tantas vezes andei horas esquecidas á procura de ninhos; supponho-me deitado na caminha de ferro que minha mãe comprara para mim e quando, aos domingos, ao ouvir o badalar do sino logo de manhãsinha, eu me levantava, lavava, e minha mãe ia ajudar-me a vestir a roupa nova para ir á missa; e eu lá ia, muito serio, ao lado de minha mãe, com uma bengalinha de bambú que me tinham dado, e depois da missa voltavamos para casa, eu almoçava e em seguida ia brincar, a maior parte das vezes para o campo, com os meus companheiros. Recordo-me d'estes com saudade,{22} alguns dos quaes, talvez mais felizes do que eu, já morreram, e outros, andam muito longe, alguns nem eu sei por onde, luctando com a vida, abreviando os annos da existencia...
E nestas recordações sinto um bem-estar indefinivel que, commovendo-me, attenuam os dissabores da minha vida presente.
Oh! Quem me dera voltar aos dias da juventude! Tornar a gosar a unica felicidade que nos é dado gosar na vida!... Impossivel! A vida tem o seu movimento como as aguas do meu querido Vouga que vae morrer ao mar. Elle tambem não retrocede ás suas montanhas para d'alli voltar, em suaves murmurios, a beijar as melênas dos sinceiraes o ouvir os dôces cantares das camponêsas em dias estivos e mitigar a ardencia de tantos peitos apaixonados.................
Meu caro leitor, se és cidadão, se passas a vida na atmosphera doentia da cidade, vem commigo á minha aldeia. Aqui, n'este paraizo, serás o Dante e eu serei Beatriz.
Verás maravilhas: mas não as maravilhas que nos fazem arregalar os olhos de espanto e que tens em abundancia na tua cidade. Verás maravilhas da natureza que nos sensibilisam a alma e dulcificam o coração.
Serás conviva entre gente pobre, mas bôa, nas suas simples refeições; serás testemunha e confidente de conversações despretenciosas e intimas de paz, socêgo e alegria, á lareira, emquanto o vento zune lá fóra e a chuva fustiga as folhas das larangeiras e entôa, nas telhas grossas da choupana, a sua canção monótona; assistirás ás festas intimas dos simples, ao seu labôr quotidiano, aos seus regosijos, ás suas alegrias, aos seus pezares; palrarás com a gente do{23} campo e estudarás a sua bôa indole; espraiarás a vista por horisontes muito extensos, por sobre montanhas longinquas; aspirarás a largos sôrvos o ar purificado pela folhagem de centenares de arvores, cruzado pelo esvoaçar de milhares de avesinhas silvestres e aromatisado pelo odôr de myriades de florinhas espalhadas por estes campos além; e o teu rosto adquirirá as côres róseas das pintadas maçãs camoêzas que aqui ha em abundancia.
Depois, quando voltares á tua cidade, levarás d'aqui profundas saudades; a tua alma, ao recordares os mil encantos que a electrisavam, sentirá a mesma commoção que sentiu a do velho Horacio, quando este inclito poeta, vendo-se sem a tranquillidado dos campos, disse—ó rus, quando te aspicio!—oh! campo, quando te tornarei a vêr!{24}
[II]
O anno passado, n'uma manhã serena e fresca de maio, fui ao campo para vêr nascer o sol.