Alquerubim!
Só o nome é bonito! Parece que nos deixa nos ouvidos um tinir semelhante ao de uma gargalhada innocente e ingenua d'uma creança!
Pensareis talvez que estas palavras são a expressão expontanea do sentimento que me inspira, como a todos nós, a evocação da terra que me viu nascer.
Não.
Quando pronuncio a palavra «Alquerubim», a minha alma não experimenta aquella sensação que nos faz pulsar de enthusiasmo o coração quando pronunciamos o nome da terra em que pela primeira vez abrimos os olhos no mundo; porque não foi alli que sorvi os primeiros tragos de leite no seio materno.
Mas se não foi alli que lancei os primeiros vagidos, foi comtudo onde a minha juventude deslisou suavemente como um murmurante arroio serpeando por um prado tapetado de boninas e violetas.
É por isso que, ao evocar esse nome, o sentimento que brota dentro do meu peito, se não tem o vigor patriotico, tem comtudo uma doçura inexprimivel—a saudade.
Nessa aldeia, uma saudade me ficou entrelaçada com os ramos de cada arvore; em cada rua, uma gotta de sangue dos meus tenros pés feridos por uma pedra desligada da calçada; em cada salgueiro sobranceiro ao Vouga, um pedaço da minha alma... Por isso, ao recordal-a e ao contemplal-a, invade-me{21} a mesma tristeza que invade uma pomba que, depois de ter, em manhãs frescas do vêrão, adejado mansamente sobre um campo tapetado de verdura, o vae encontrar, no inverno, sepultado nas aguas.
Acaba de passar sobre o meu dôrso o frio do meu vigesimo segundo inverno. Acabo de transpor o atrio do edificio que se chama—Vida. E, ainda que na primavera da minha mocidade, tenho comtudo já sido açoutado por vendavaes ferozes. É no meio das tormentas que tão cêdo começaram de me assaltar, que eu procuro refocilar o espirito e fortalecer o coração nas dôces recordações da minha juventude.
Ao fazer retroceder o pensamento por esse caminho orlado de odoriferas madresilvas e tapetado de violetas aromaticas, sinto que do meu intimo se eleva um não sei quê parecido com um fumosinho que vem condensar-se-me nos olhos. Lagrimas? Não. Não chega a formar gottas. Um nevoeiro que me tolda a vista, mas muito tenue, que eu considero o chorar da alma. Porque a alma tambem chora.