—Falla-se que o Lopes vae vender aquella casa com a propriedade que fica aqui nesta rua, á beira da estrada, mesmo á esquina da viella da Nóra. É um aido grande, tem boa agua, e está num sitio lindo, donde se vê o campo todo...

—Pois isso é que me convinha comprar.

—Se vossa senhoria quer, vamos ter com elle, e, se o homem estiver resolvido...

—Paga-se-lhe bem e...

—E arranja-se tudo á surrelfa; escusa de a annunciar.

—Pois é isso. Vamos então lá.{93}

[IX]

Estava-se no principio da primavera, a quadra em que a natureza, banindo a melancholia em que estivera mergulhada durante alguns mezes, começa a vestir-se de galas. As arvores que, na nudez dos seus ramos, só inspiravam tristeza, começam a revestir-se d'uma folhagem pequenina e tenra, e os passaritos, passeando d'umas para as outras, chilreando, cantando, juntam a sua alegria á alegria da natureza, parecem inebriados com tanta doçura.

Era num dia limpido da primavera, ás sete horas da manhã—uma manhã de agradabilissima frescura, clara, serena, animada por um sol cheio de vida e sorridente, pairando no ceu azul e coando-se atravez da atmosphera d'uma extrema limpidez—uma d'estas manhãs cheia de vida que, gosadas na aldeia, teriam o dom sobrenatural de inocular no animo d'um desvairado o gosto pela vida de que estivesse prestes a desfazer-se.

O tio José da Alameda, sentado no muro da sua eira, contempla o aido com um sorriso de amargura e satisfação. Contempla as arvores rejuvenescendo de encantos, muitas das quaes elle plantou e outras lhe foram legadas por seus paes; faz passear a sua memoria pelos tempos passados, recordando, com amarga saudade, esses tempos ditosos que foram para nunca mais voltar, e, na sua profunda abstracção, estremece á voz d'um homem que, por detraz de si, o chama.{94}