—Mas tambem comprehendo que, depois de uma passeata d'essas, deve trazer bom appetite; e como a sua casa ainda fica distante...

—Oh! senhor! Nesse caso, obriga-me a almoçar duas vezes...

—Olhe que não faz mal nenhum! Eu, quando era da sua edade, era capaz de almoçar tres vezes. O senhor desculpe-me a franqueza com que lhe fallo...{95}

—Oh! nem nisso se deve fallar. E já que assim quer, terei hoje o prazer de almoçar na sua amavel companhia.

—Vamos lá. Se estamos com ceremonias, não saimos d'aqui hoje.

E o velho, travando-lhe do braço, encaminhou-o para casa, que ficava a cerca de cem metros.

Conversando e parando a cada passo, o tio Alameda ia-lhe fallando da agricultura d'aquelle anno, que promettia não ser fecundo, de pouca novidade, pois que, se assim continuava o tempo, sem chuva, ter-se-ia um anno de fome; applicou o adagio «se não chover em março e abril, venderá el-rei o carro e o carril».

—Olhe o sr. Velloso: ha um dictado que diz «em março queimou a velha o maço; em abril queimou o carril; uma cama que lhe ficou, em maio a queimou; e ainda lhe ficou como um punho, que o queimou em Junho».

O brazileiro ria-se dos dictos do tio Alameda, e interrompia as suas considerações sobre a agricultura, de que não percebia nada, com monosyllabos, acênos de cabeça e breves repetições do que ia ouvindo. Por fim, a conversa incidiu sobre coisas de que já podia fallar, e, como quasi todos os individuos que, tendo nascido na lama, se vêem um dia deitados em leitos fôfos e voluptuosos e gostam de alardear os seus haveres, elle fallou dos seus negocios, das transacções dos seus capitaes, dos seus projectos da vida futura que tencionava passar, na aldeia onde nasceu, fallou da compra da propriedade ao Lopes, onde andava já a construir uma casa, etc., etc.

Por fim, chegaram, ao cabo de uma boa meia hora, a casa do tio Alameda.