—E vae por ahi abaixo, e encontra outra mais bonita que todas...
—É impossivel. Parece-me que a escala das mulheres formosas parou aqui. É impossivel mesmo que continue... A menina desculpe-me o atrevimento com que me dirigi a si, sem a conhecer, mas...
—Oh! senhor! Não tem nada que...
—Mas é que eu, com franqueza o digo, não pude resistir á vontade de contemplal-a mais detidamente que por um simples relance. Fiquei impressionado com os seus encantos. Eu costumo dizer o que sinto e perdôe-me se a offendo com a minha franqueza.
—Oh! Não diz nada que me offenda. São umas mentiras tão sem valor, que...
—Creia! isto é do coração. Trabalho tinha eu em chegar ao pé de todas as mulheres de que gostasse e dizer-lhes: «a menina é bonita!» Não! Agora é que realmente fiquei devéras impressionado, e não pude resistir á vontade de contemplal-a por momentos, já que não poderei contemplal-a todas as vezes que quizer, durante toda a vida. E então havia de estar pasmado no meio do caminho, a olhar para si sem dizer palavra? Digo então o motivo da minha admiração.
—É uma questão de pachôrra...{113}
—Não é, creia. É uma sympathia que a menina me inspirou. Não é uma simples curiosidade ou pachorra, como diz, o contemplal-a por a sua belleza ter despertado a minha attenção. É que realmente no seu todo ha não sei quê que captiva; e parece que quanto mais tempo aqui estou, mais captivado fico! Vou-me então embora, para não ter de ficar aqui toda a vida.
—Oh! snr. Velloso! Seria melhor que mentisse menos; retrucou ella sempre com o mesmo sorriso.
—Ahi está como são as coisas no mundo! Muitas vezes um homem serve-se de mil embustes que são acreditados como as palavras do Evangelho; e eu agora, dizendo o que realmente sinto, sou considerado um impostor!—E accrescentou, com expressão ficticia de pezar—Mas não admira, porque, segundo o mesmo Evangelho, Christo só fazia bem e dizia verdades, e comtudo foi castigado como o maior dos embusteiros e como um grande criminoso...