—Ora vamos cá dar uma passeata pela fresca até ao campo, monologou o sr. Velloso, espraiando a{115} vista pela planicie, empertigando-se e affrouxando o andar, de mãos nos bolsos das calças.
Uma creança de oito annos, pobremente vestida, mas com uns olhos cheios de vivacidade, conduzia uma manada de ovelhas e, ao passar pelo brazileiro, interrompeu a cantilêna que vinha assobiando, e disse:
—Adeus!
O sr. Velloso respondeu á salvação cheia de candura da creança com um quasi imperceptivel e mal humorado «adeus», resmungando em seguida:
—Que raio de costume! Podem esquecer-se de comer. Mas de incommodarem as pessoas com estes impertinentes «adeus» que nada significam e que não se esquecem! E os filhos já vão pela mesma toada!... Que raio de costume!
O sol escondera-se e a penumbra ia-se tornando cada vez mais espessa; uma suave nebrina se evolava mansamente sobre o Vouga.
O sr. Velloso parou num sitio ensombrado pela ramagem d'um espêsso salgueiral, onde dois caminhos se cruzavam; puxou de um charuto que accendeu, e retrocedeu.
Ouviam-se os balidos das ultimas ovelhas que recolhiam aos apriscos, e as Ave-Marias soaram, lentas e cheias de ternura, nos sinos da egreja.
—«Trindades na aldeia são horas de ceia», dizem elles por cá. E não ha remedio senão dizer e fazer como elles, quando não chamam-me figurão.
Quando passou á porta de Maria Luiza, a janella estava fechada. Parou alguns instantes em frente da porta, e ouviu uma toada de duas vozes distinctas que se alternaram.