Approximou-se e escutou. Mãe e filha rezavam o terço.{116}
[XIII]
Maio florido, maio encantador e poetico, porque foste traidor?!...
Um sol cheio de vida espalhava-se por estas collinas verdejantes bafejadas por uma briza fagueira e meiga, semelhante ao halito da bôcca d'um anjo. Cada despontar do sol era precedido de uma longa e pittoresca symphonia executada por milhares de gargantas de passarinhos chilreantes, alegres como creanças. Estes outeiros, elevando-se garbosamente em ondulações suaves, eram tablados do mais colorido e pittoresco scenario—o magnificente scenario pintado pela mão da natureza, ao ar livre, com ramagens reaes e pujantes de seiva e frescura, debaixo d'um ceu offuscante de belleza.
Tudo era poesia, tudo era amôr.
O proprio Vouga, correndo por entre duas alas de salgueiros viçosos que se bamboleavam donairosos retratando-se cheios de vaidade na superficie polida das aguas, sorria-se para elles, com um sorriso amargo de despedida, beijando ternamente as franjas da sua ramagem verde que sobre elle se debruçava com carinho.
E tu, maio risonho, deixaste que um branco e puro lyrio que embellezava o teu jardim, roçasse as suas pétalas mimosas na terra negra e immunda!
Maio florido, maio risonho e poetico, porque foste traidor?!...{117}
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O coração humano e, em especial, o coração da mulher, é uma fonte de enygmas.