O carro approximou-se: trazia um arado e uma grade.

Um homem, que reconheci ser o tio Luiz da Nóra, vinha dentro d'elle, arrimado a uma aguilhada. Ao pé de si vinham dois rapazes: um, dos seus 14 annos, encostado ao timão do arado; o outro, ainda creança de não mais de 7 annos, encostado á sebe{26} de vimes, as mãositas mettidas profundamente nos bolsos do casaco que devia ter sido do irmão, pois não era cortado segundo as dimensões do seu corpo.

—Eh! Tio Luiz! Bom dia.

—Olá! Bom dia, sr. Antonio. Então por aqui já, tão cedo?—Oh! Pára ahi, loura! Oh! castanha!—Isso é que foi madrugar, hein?

—Que quer? Eu gosto muito de respirar este ar fresco e puro da madrugada.

—Ah! é bom, lá isso é. Pois nós vamos alli abaixo lavrar uma terra para semear milho. Vamos assim cêdo, que é para fugir ao calôr; porque ahi por volta das dez horas, elle já apoquenta bastante quem anda no trabalho. Lá os senhores, é como o outro que diz «se tenho frio vou-me aquecer, se tenho calôr vou p'rá sombra!» e não sabem o que é andar a puxar pelo corpo debaixo d'um calôr de rachar!

—Não sei, mas calculo. Mas, meu amigo, você não sabe que todos os modos de vida têm os seus espinhos? Olhe que a vida do lavrador, apesar de laboriosa, é a melhor que ha! Diga...

—Ai! ai! ai! Se vamos...

—Espere! Diga-me lá uma coisa: você faz lá uma pequena ideia do que é uma pessôa levantar-se ao nascer do sol e dizer lá comsigo: «vamos agora a vêr que tal está o milho d'aquella terra que eu semeei ha tantos dias; preciso agora de fazer isto, fazer aquillo», etc., e, á noite, fatigado mas contente, dando graças a Deus por lhe ter feito nascer o milho, as ervilhas ou a herva muito bem, deitar-se socegado do espirito—do espirito, que é o melhor socêgo!—e dormir a somno solto a noite inteira! Você sabe lá quanto isso vale?

—Tambem não sei, mas calculo... Mas, se{27} quer que lhe falle com franqueza, eu trocava com todo o gosto esta vida, que vocemecê está pr'áhi a elogiar, por um emprêgosito que me desse cinco ou seis tostões por dia, sem precisar de calejar as mãos nem me vêr obrigado ás vezes a levantar cêdo com um frio de rachar as pedras. Isso! Isso ó que é uma vida bôa! Mas, com'assim, quem nasceu p'ra isto, d'isto não póde sair. E vae a gente assim vivendo n'esta vida tão regalada, como vocemecê lhe chama...