—Vê? Pois n'isso é que consiste a felicidade: não nos importarmos nem ambicionar coisa nenhuma. Vive você resignado com a sua sorte, e não aspira a outra melhor, partindo do principio que foi Deus ou o destino que assim determinou...

—Pois é isso mesmo. Deus quer, não ha remedio senão sugeitar-se a gente...

—Ora suppônha o meu amigo que lhe davam um emprego de quatro ou cinco tostões diarios. Você, ao cabo de algumas semanas, começava logo a olhar com olhos de cubiça o emprego d'um seu collega que ganhasse um ou dois tostões mais; punha-se a metter empenhos, incommodava-se a pedir a uns e a outros influentes politicos, arranjava o emprego, e, chegadas as eleições, lá tinha de ir dar o seu voto pelo individuo que o favoreceu. Depois, quando tivesse adquirido uma certa convivencia com essa gente fidalga, como vocês lhe chamam cá, o seu ordenado tinha de ser muito bem governado para chegar para as despezas caseiras e despezas de vestuario, etc., para você se apresentar decentemente em publico. Entretanto ia já deitando o olho a um logar mais vantajoso, isto é, mais rendoso; supponhamos que o conseguia, e você talvez não saiba que os empregos publicos, em regra, quanto mais bem pagos são, menos trabalho dão. Você ia-se{28} habituando a ganhar cada vez mais, e a trabalhar cada vez menos. Começava o seu corpo a resentir-se do torpôr resultante da inacção physica, e ahi estava o meu amigo e senhor Luiz atacado da mesma doença que ataca quasi toda essa gente que só come borôa por desfastio. La tinha de andar com trinta mil cuidados com o seu corpo, não apanhar uma corrente de ar frio ou um boccado de sol, não comer de mais nem d'isto, nem d'aquillo, etc., etc., mil trapalhadas!

—Mas ao menos, ganhava dinheiro que chegasse para tudo isso...

—Podia ganhar e podia não ganhar. Olhe, meu caro: não ha vida como a de lavrador. Creia! Olhe que eu digo isto com franqueza.

—Mas então porque é que o sr. não tomou esta vida?

A pergunta do tio Luiz deixou-me um pouco embaraçado, e pude tartamudear:

—É que... bem vê, o mundo é assim... Nós vamos para onde nos encaminham...

—Ah! Ah! Ah! Será melhor mudar de conversa; vou-me á minha vida, que está o sol quasi a nascer. Para esta vida—acrescentou elle, rindo-se zombeteiro ainda do meu enleio—de que o sr. tanto gosta! Ah! Ah! Ah! Venha d'ahi no carro até alli abaixo, quer vir?

—É verdade. Já o pudera ter feito, escusava você de estar a perder o seu tempo.