Avançou até junto da porta, e escutou.

Ouviu a voz de Maria Luiza, compungida, que dizia:

—Sr. Velloso! Que Deus me perdôe o passo que dei! D'hontem para cá, tenho chorado talvez mais lagrimas que em todo o resto da vida. Eu não devia fazer o que fiz. O remorso pesa-me na consciencia duma maneira que não me deixa socegar o espirito.

João da Alamêda agarrou-se com uma das mãos a um barrote, e com a outra esfregou os olhos, como querendo certificar-se de que realmente não sonhava. Livido, os labios tremulos, conservou-se no seu posto a ouvir a mesma voz que proseguia:

—Deve comprehender a infelicidade que me espera, se acaso não tiver piedade de mim, se não cumprir o juramento que me fez!

—Nada mais prezo neste mundo que a minha palavra, Maria, respondeu a outra voz, a do brazileiro.

—Infames! murmurou, com os punhos cerrados, o João, luctando no seu intimo contra a tentação de arrombar aquella porta. Homem infame, e infame mulher! E, voltando-se, desvairado, com os punhos apertando a cabeça, cambaleando, murmurava:

—É assim que pagas tantos sacrificios que fiz por ti, mulher ingrata?! Tanta dedicação, tanto amôr?!...

E, chorando como uma creança, olhou mais uma vez para o alpendre. Depois, como tomando uma resolução, continuou:

—Não! Não quero manchar as mãos no sangue{126} d'um bandido! Que ganho com isso? E, como um ébrio, voltou pelo caminho que tinha tomado.