Governava este reino o filho de D. João I. Affonso V acolhia e estimava as arriscadas emprezas a que serviam de incitamento o aturado e porfioso estudar da eschola de Sagres. Deviam alli ter achado as antigas noticias dos descobrimentos e navegações do povo scandinavo além da Islandia e Groelandia, ás terras denominadas Markland, Vinkland, etc., actualmente esquecidas por quem primeiro as encontrára, ou destruidas e submergidas com os infelizes christãos que n'ellas se achavam, ou estes completamente anniquilados e desapparecidos sob formidaveis moles de gelo.

Quando em Sagres convergiam toda a luz da intelligencia, toda a força da vontade audaciosa de um povo soccorrido com as luzes e os esforços dos mais esclarecidos e dos mais aventurosos genios de todos os paizes, é claro que não podiam minguar noticias de acontecimentos tão notaveis e tão sabidos poucos decennios antes. A estas noticias, e ao pensamento primordial que presidia então a todas as nossas navegações,—descobrir um caminho, uma passagem para a India,—devemos attribuir o arrojo com que João Vaz Corte-Real, fidalgo da casa do infante D. Fernando, se arriscou a navegar para o noroeste em demanda das terras anteriormente visitadas, ou a fim de passar o mar até encontrar a India.

Sabemos que em 1462 João Vaz Corte-Real, com Alvaro Martins Homem, chegára á Terra Nova ou do Bacalhau. Não se encontram, porém, vestigios de terem proseguido estas navegações desde então até ao fim do seculo. Foi em 1500 que o nobre Gaspar Corte Real, auxiliado por el-rei D. Manuel, conseguiu sair do Tejo com dois navios, e, tocando na ilha Terceira, visitar os seus amigos e parentes para depois seguir a derrota de seu pae. Chega á terra que denomina Labrador, visita o porto das Malvas, a Terra Verde, o rio Nevado, a ilha do Caramelo ou dos Demonios, e o que hoje se diz Canadá. Denominou-se Canada, e não Cá nada, como se cuida que foram as palavras dos primeiros portuguezes que entraram esse rio: Canada, por não ser largo o caminho, que, como desejavam e esperavam, désse passagem para a India; e não Cá nada, por deixarem de encontrar o oiro, porque o oiro que então procuravamos era a India. Volta Corte-Real a Lisboa, e, partindo novamente para aquellas paragens no anno seguinte, nunca mais se recebem noticias d'elle. Miguel Corte-Real, seu irmão, dirige-se para a terra do Labrador, e tambem d'alli não volta.

Quer Vasco Eannes Corte-Real velejar para as regiões onde lhe desappareceram os dois irmãos queridos; não consente, porém, El-rei, antes manda a outros que vão na infructifera procura dos Corte-Reaes! E o que resta de tanto esforço e ousadia, de tanta coragem e dedicação? A gloria de contarmos entre os Gamas e Albuquerques, Almeidas e Castros, os nobres Corte-Reaes, cuja memoria será tão duradoira como a terra que descobriram e onde pereceram! É o que resta dos Corte-Reaes!

Navegára, e tornára-se distincto na sciencia do mar e da guerra o nosso compatricio Fernão de Magalhães. Seguíra para a India na frota de Diogo Lopes de Sequeira, quando aquelle capitão fôra ás ilhas de Madagascar e de Malaca. Na volta de Goa para o reino, naufragando as naus, deveu-se á intelligente energia e ao dedicado serviço de Fernão de Magalhães, com a salvação das vidas, o não se perder toda a fazenda real. Em galardão d'estes trabalhos, pediu Magalhães a el-rei o accrescentamento de duzentos ou de cem réis mensaes na sua moradia; mas D. Manuel, ou por causa de um processo em que fôra envolvido o illustre navegador, ou porque lhe não houvesse ganhado affeição, indeferiu o pedido.

Este indeferimento valeu uma grandissima gloria á Hespanha. Fernão de Magalhães, estudando e meditando, recebendo copiosas informações das Molucas e de todo o Oriente, presentiu que havia ainda outro caminho para a India além d'aquelle que fôra descoberto pelo Gama. Crente n'esta esperança, deixa Portugal, e vae offerecer á coroa hespanhola o roubar-nos o exclusivo do commercio oriental, patenteando um outro caminho para alli—sem passar pelos dominios portuguezes. Mais offerece provar que as Molucas pertencem á demarcação de Hespanha, quer pela bulla do papa Alexandre VI, quer pelo tratado de Tordesilhas.

Consegue Fernão de Magalhães a necessaria licença de Carlos V, e no dia 1.º de agosto de 1519 sae de Sevilha no navio Trindade, seguido por outros quatro navios, Victoria, Santo Antonio, Conceição e S. Thiago, sendo o maior d'elles do porte de 130 toneladas. Vão ancorar em Tenerife, e alli, refazendo-se de agua e mantimentos, recebe Magalhães o conselho de se acautelar dos companheiros, que mais são inimigos promptos a rebellar-se contra elle, do que auxiliares que o ajudem na primeira difficuldade que se deparar. Veleja para a terra de Santa Cruz, entra no Rio de Janeiro, navega depois para o sul, chama Monte Video ao morro situado á entrada do Rio da Prata, e n'este rio surgem todos. Examinam o Rio da Prata para ver se dá a desejada passagem para o mar do Poente, mar avistado por Balboa quatro annos antes, e com este intuito exploram a costa, visitam as enseadas, reconhecem as bahias que descortinam, e ferram n'aquella que denominam de S. Julião.

Foi alli onde Magalhães teve de supportar, com os trabalhos e perigos da tormenta, os desgostos da rebeldia dos companheiros. Foi alli onde Magalhães se mostrou energico e severo, como não podia deixar de ser capitão que tanto ousava, capitão que taes feitos emprehendia. Saíndo de S. Julião, entra no rio de Santa Cruz, e, novamente desferindo as velas, continúa a navegar para o sul até descobrir o cabo que chamou das Virgens, e, descortinando outro cabo ainda mais para o sul, manda fazer grandes festas, porque, pelas fortes marés e outros signaes, presente que terá chegado ao tão desejado estreito que lhe dê passagem para o outro mar. Entra o famoso estreito, denomina do Fogo a terra do sul, e, apesar de abandonado pelo navio Santo Antonio, continua a navegar, e chama Desejado ao cabo que pelo sul termina esse estreito. E assim, a 26 de novembro, desemboca com tres navios no mar que denomina Pacifico.

Segue governando a differentes rumos, alcança a ilha de S. Paulo ou Desaventurada, depois a dos Ladrões, e por ultimo as Filippinas. D'alli, guiado por praticos do paiz, vae aonde a sorte mesquinha quer que seja o ultimo dia de vida de tão infeliz quanto ousado e esclarecido navegador. Chega á ilha de Zebut, e, combatendo contra os naturaes com espantosa desegualdade em numero, contra a perfidia e traição dos indigenas, que, reconciliados, lhe preparam tão infame ingratidão, e contra a falta de polvora, quando os companheiros afflictos buscam salvar-se nas lanchas, Fernão de Magalhães, o portuguez, cobre e defende a retirada até ao ultimo, e, guardando-se para derradeiro, é morto alli!

Um só navio, o Victoria, consegue tocar em Timor, e, commandado por Sebastião d'el Cano, seguir derrota pelo cabo da Boa Esperança, refazer-se de aguada em S. Thiago de Cabo Verde, e entrar a 7 de setembro de 1522 no rio d'onde partíra quasi tres annos antes, tendo feito uma volta completa em roda da terra.