A galé sulca, e secunda nas paragens do Oriente os esforços dos nossos contra a traição dos naturaes.

Levantado o véo, exposto o Oriente a todas as vistas, tornam-se habituaes os portuguezes na manobra dos navios, no conhecimento dos tempos e das costas, e, arrojadamente curiosos, tudo devassam, tudo visitam, tudo observam, buscando os terminos do mundo.

É assim que ao perpassar das naus se apresentam as ilhas de Pedro Mascarenhas; é assim que Duarte Coelho vae á Cochinchina, Andrade desembarca na China, Jorge Mascarenhas em Lequeos, Antonio Corrêa no Pegú; é assim que a Asia insular é reconhecida, e que a terra depois chamada Nova Hollanda é expugnada; é assim que o Japão se depara á admiração dos capitães e ao zelo fervoroso dos missionarios. As feridas da espada conquistadora eram curadas com o balsamo da religião. Onde apparecia a espada brilhava a cruz. Quando o soldado bradava «Guerra!», o sacerdote solicitava paz e misericordia. Foi assim que nós conquistámos, foi assim que nós civilisámos... Esqueçamos os desvios de quem por vezes deixou de imitar o padre por excellencia, o missionario por dedicação, o martyr voluntario, o apostolo do Oriente, S. Francisco Xavier, em fim.

Morrêra D. Francisco de Almeida ás mãos dos negros, finára-se Albuquerque ralado pelos desgostos, fallecêra el-rei D. Manuel seguindo de perto o seu mais valente capitão, expirára o nobre Gama na India que descobrira. Tão apressados em caminhar para o tumulo como o foram de se immortalisar, presagio devia ser do negro futuro que aguardava a sua patria. Rei venturoso, feliz de ti, que ao legar tantos reinos, tantas glorias e tanto oiro, soubeste escrever em doiradas paginas a historia do teu reinado de vinte e seis annos, tão povoada de heroicidades, tão abundante de nobres feitos, que bem vale por si sómente toda a historia de um povo. E se quiz Deus que uma fosse negra entre tantas paginas de oiro, foi de certo para provar ás futuras gerações que existiu em verdade o reino que aliás tomariam por fabuloso, e que o rei d'esse reino foi um homem, D. Manuel, e não um Deus.

Taes homens não morrem, vivem sempre na memoria. E vivem para guardar o que conquistaram, e vivem para dar exemplo dos seus feitos, e vivem para incitar novos commettimentos, e vivem bem de pé, encostados ao leme do galeão, segurando a penna ou empunhando a espada, em quanto vive o derradeiro que os conheceu. Foi a estes homens que governou D. João III. Estavam os ceos serenos e limpidos á hora em que os reis d'armas bradaram «Arrayal!», por elle, turvos e carregados os deixou ao soarem os dobres pedindo orações para a sua alma. Foi com a seiva do reinado de D. Manuel que vegetou o de D. João III—seiva que bem podia sustentar ainda a opulenta e pesada coroa que mais tarde havia de despedaçar-se no solo africano, de encontro ás lanças do infiel. Se já não ascendia a estrella que brilhava no ceo, essa estrella brilhava comtudo, e ainda não descendia. O occaso... era, portanto, imprevisto.

Começam as luctas contra quem começa a disputar-nos os proveitos resultantes de emprehendimentos que não foram disputados, e em que sós, e bem sós, nos achámos. Começam a revelar-se as tendencias mercantis para sobrepujar os commettimentos da heroicidade. E estas luctas sustenta-as el-rei D. João III contra a Inglaterra e contra a França, que pretendem frequentar os nossos dominios maritimos. Mas começára a epocha do commercio, repetimos, e se as espadas de Nuno da Cunha e D. João de Castro ceifam loiros immarcessiveis, se Antonio da Silveira e João de Mascarenhas se immortalisam defendendo Cambaya, nem por isso as tendencias se revelam menos em preferir o negocio que produz riquezas ás estocadas que dão morte, ainda que com gloria. É n'este reinado que Martim Affonso de Sousa vae á terra de Santa Cruz, e alli começa a estabelecer colonos, que depois hão de tornar-se n'um grande povo. É tambem n'este reinado que Thomé de Sousa desembarca na Bahia de Todos os Santos, onde lança os fundamentos de uma grande cidade.

Mas o tempo insta, e falta-me fallar de tres prestantissimos varões.

São elles Corte-Real, Fernão de Magalhães e Christovão Colombo.

Nem pelos ter posposto a outros esclarecidos navegadores n'esta brevissima resenha, deixam elles de occupar privilegiados, se não principaes logares, entre os mais illustres e nobilissimos navegadores e descobridores.

Fallarei primeiro dos Corte-Reaes.