Havia então em Portugal abundancia de verdades, espadas largas e portuguezes de oiro, que se expediam successivamente para a India. Nem mais verdade, nem espada mais larga, nem portuguez mais de oiro, alli enviámos do que Affonso de Albuquerque.

Albuquerque, Napoleão portuguez, foi o primeiro que depois de Alexandre passou á India como conquistador, e, mais do que Alexandre, como civilisador.

O braço de Albuquerque rende a forte Ormuz. Ormuz, á qual chamava a pedra do annel formado pela India! Ormuz, onde recebe embaixadores do xeque Ismael, que lhe pedem pareas como tributario, e a quem manda entregar pelouros e lanças, dizendo-lhes que é aquella a moeda com que el-rei de Portugal paga tributo aos reis da India.

Ormuz é pouco, fecha apenas o golpho persico. Como o estreito arabico é guardado por Socotorá e Camaram, mais é preciso assentar fortaleza e dominio em Goa e Malaca. Caem, pois, em poder do illustre Albuquerque a doirada Goa e a riquissima Malaca. Expede embaixadores e descobridores para Sião, Duarte Fernandes e Ruy da Cunha ao Pegú, e a Maluco Antonio de Abreu.

Assim consegue o esclarecido Affonso dominar da pequena ilha de Goa todo o Oriente, fechar, nas mãos do rei de Portugal aquelle vastissimo emporio, aproveitar e governar o commercio do mundo!

Das lides do cêrco descança Albuquerque na fadiga da conquista, repoisando depois na lucta dos temporaes, para em fim se entregar ao duro encargo de reger e administrar tão dilatados dominios, tão extenso commercio, tão variados interesses, tão diversos e numerosos subalternos.

Não ha logar para admiração: os acontecimentos succedem-se com incrivel rapidez durante o governo de Albuquerque. Havemos de admirar o genio, o esforço, a ousadia do governador, ou a negrura e perfidia dos invejosos? Nunca tão baixos sentimentos sacrificaram mais nobre victima. Albuquerque, levantando a sua patria ao apogeo do esplendor, ao cumulo da opulencia, recebe em troca de taes serviços a mais negra ingratidão; e, quando o desprezo da corte pretende affrontar o nobre Albuquerque, elle, ralado pelo desgosto, consumido pela febre que o devora, definha e fallece, acolhendo-se á egreja mal com o rei por amor dos homens, e mal com os homens por amor del-rei.

Indigno do nome portuguez fôra eu, se tratando dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI, das causas que os determinaram e dos resultados que derivaram d'esses descobrimentos, deixasse de pronunciar os venerandos nomes do illustre Almeida e do grande Albuquerque. Lamento que me falte o tempo, e que, pronunciando apenas os nomes d'aquelles immortaes varões, tenha de passar em silencio os bravos feitos do intrepido Duarte Pacheco e de outros heroes que levantaram á altura das primeiras marinhas dos passados seculos a marinha portugueza no decimo sexto seculo.

Não posso fazel-o, porque é pouco o tempo que me resta para ainda tratar de tantas e tão grandes acções, de tantos e tão nobres feitos, e para satisfazer á terceira parte do meu ponto. Resumirei, pois, quanto podér, nos mais estrictos limites de uma resenha, e não de larga narrativa, os acontecimentos que se succedem. Outro tanto não devia nem podia fazel-o com os anteriores factos. Foi d'elles, e do systema seguido para o seu conseguimento, que se obtiveram os resultados espantosos que passarei a expor. Não podia pois, deixar de consagrar alguns minutos á memoria de portuguezes que logram occupar largas e brilhantes paginas de todos os sinceros historiadores, de todos os philosophos que hão registado o progressivo caminhar dos povos na senda da civilisação, na estrada do progresso.

Cruzam-se nos mares as rótas dos galeões portuguezes. A caravela desfralda altiva a bandeira da ordem de Christo, guardando do estrangeiro accesso a costa africana.