Espera as naus do reino, e, mal que chegam, veleja para onde a vingança o impelle e a gloria o aguarda. De caminho para Diu, entra em Dabul, espalha a desolação e terror, entregando ao fogo o que se livra da espada; chega a Bombaim, e d'alli, por seguro portador, envia o leal D. Francisco uma carta a Melequiaz, governador de Diu, prevenindo-o de que o vae atacar. Não quer o illustre Almeida que digam moiros que o vice-rei vencêra por surpreza. Despreza tal soccorro, e, fundeando ante a forte e opulenta cidade, prestes se prepara para um combate que deve decidir do nosso futuro n'aquelles mares.
Ajudado de todo o mauritano poder no Oriente, sae Mir-Hocem de Diu, e, fazendo pomposo alardo das suas forças, larga ancora toda a armada bem junto á terra.
Confiados na superioridade que dá o numero, estão os moiros descançados, e passam em gritas e prazeres a noite que antecede o combate, e que para a mór parte d'elles é vespera da eternidade.
A pique esperam os nossos pela viração. Tão depressa ella enruga as vagas, como afanosamente é aproveitada nos traquetes, e as naus vão dar fortemente sobre os moiros.
Trava-se rija a peleja, disputa-se enfurecido o combate. Não é lucta, mas encontro de furor, que alli se vê na sanha com que obstinadamente se perseguem os contrarios. De um e outro lado comprehendem que vae ser decisivo este duello. De um e outro lado succedêra á inimizade o odio, e ao odio o rancor.
Celebre nos fastos da historia maritima, foi esta a primeira batalha naval dos tempos modernos, dada segundo as regras de um bem formado plano de tactica, e servirá de doirada pagina em que as futuras gerações leiam a historia de um grande heroe e de um grande povo.
Suppre a coragem, o esforço, a ousadia, o atrevimento, a ardidez, onde rareia o numero. Acossados por toda a parte, mas por toda a parte multiplicando-se, como que subdividindo-se, e a toda a parte acudindo, cede, recúa, foge e é desbaratado o inimigo, que para salvar-se procura a terra. Com o seu chefe, internam-se e desapparecem os contrarios, para não mais voltarem á India, deixando a armada em despojo e testimunho da victoria solemne alcançada pelo vice-rei D. Francisco de Almeida no sempre memoravel dia 3 de fevereiro de 1508.
Entrega Melequiaz os 24 captivos que recolhêra da nau de D. Lourenço; mais entrega, com largas indemnisações de guerra, os moiros que se encontram na cidade, e alli offerece ao vice-rei que levante fortaleza. Mas D. Francisco entende, como Themistocles entendia e repetia aos gregos, que para ser grande em terra mais preciso era ser grande no mar. Volta Almeida a Cochim, depõe o governo da India, e ao regressar á patria, venerado pelos amigos, temido e admirado pelos contrarios, entra na aguada do Saldanha para morrer morte ingloria e mesquinha em miseravel contenda. E assim, e ás mãos de um selvagem negro, morre um dos mais esclarecidos varões que floresceram no seculo XVI.
Diogo Lopes de Sequeira, levando comsigo Fernão de Magalhães, chegára a Sumatra e a Malaca, onde assentou feitoria.
Descobríra Tristão da Cunha as ilhas que ainda guardam o seu nome, fôra a Socotorá, desembarcára com Ruy Coitinho na ilha de Madagascar, a que chamou de S. Lourenço, e que simultaneamente visitára Fernão Soares.