Tributa o rei de Quilôa, contrata paz e amizade em Cochim e Cananor, inflige severissimo castigo ao rei e cidade de Calecut, recebe embaixadas de diversos principes, e, coberto de gloria, vem entrar no Tejo, entregando a el-rei o oiro de Quilôa, que, fabricado em monumental custodia, é offerecido pelo venturoso monarcha ao mosteiro de Santa Maria de Belem.
Contempla a Europa em extatica admiração o espectaculo que offerece um tão pequeno povo; pequeno contado o numero de individuos que o compõem, grande pelo valor e audacia que provam nos arrojados commettimentos.
Só o turco sobresaltado padece desde logo as terriveis consequencias de tal descobrimento. Só a senhoria de Veneza experimenta o golpe profundo que lhe descarregámos no seu commercio. Por isso a Turquia e Veneza, dando as mãos mais uma vez, ligam-se agora contra os portuguezes na India. Iam estes alargando as relações com estender o conhecimento, com ganhar a affeição dos naturaes, e com desempenhar lealmente os compromissos contrahidos. Mas, se alcançáramos o respeito que impõe a força estacionada n'aquellas paragens, faltava ainda, e faltava sensivelmente alli, a força que deriva da auctoridade, a força que, partindo de um centro, se irradia para todos os pontos, e a todos os pontos alcança, illumina e dirige.
Vale muito o braço que fere, mais vale ainda a cabeça que dirige. É essencial mandar, á India não, mas para a India, um homem que por todos pense e a todos governe. Medita o rei na melindrosa escolha d'aquelle que deve ser delegado seu e seu representante. Entre milhares de guerreiros, entre centenas de heroes, mal se compadece preferencia que não venha do acaso. Entretanto o rei medita, e, fitando a vista em D. Francisco de Almeida, designa-o e elege-o para tão ardua missão, e com o titulo de vice-rei o envia á India. É D. Francisco o astro ao qual volvemos admirados o pensamento; é o astro que admirâmos cercado pela brilhante auréola formada por todos os nobres portuguezes, que cada dia mais se nobilitam no Oriente.
Seguido por vinte e uma velas, navega para a India o nobre Almeida, e, mal tem passado o cabo da Boa Esperança, em Quilôa e Mombaça, substituindo o rei, recebendo pareas e levantando fortalezas, assignala a sua chegada ao Oriente, onde o antecede a fama bem merecida dos seus feitos e victorias. Companheiro e mais que amigo, o bravo D. Lourenço, filho estremecido do vice-rei, é o Hercules portuguez, cujo nome a historia guarda e conserva a tradição em honrada memoria.
Chegam á India, constroem fortalezas em Cochim, Angediva e Cananor. D. Lourenço descobre Ceylão, acompanha e comboya as naus de Cochim, e, quando descançado repoisa no rio de Chaul, é improvisamente accommettido pelas forças combinadas do turco e dos reis de Cambaya e Calecut. E de força são taes navios, que cuidam os illudidos portuguezes ver n'elles as naus do reino esperadas n'essa monção.
Não vale, porém, muito aos infieis a surpreza com que os nossos foram colhidos. Responde ao atrevimento dos infieis o valor portuguez, e resgata a heroicidade na peleja o descuidado nos apercebimentos para a lucta. Desegual pela inferioridade numerica dos nossos combatentes, dos nossos canhões e dos nossos navios, ainda assim conquista a espada portugueza loiros, que bem depressa hão de trocar-se em cyprestes. Esgotam-se as munições no combate, que, por traição ou receio, deixou de travar-se braço a braço. Aprezados alguns navios do inimigo, vinda a noite, concertam-se os nossos para a pugna no seguinte dia.
Apesar de novos soccorros e reforços, mais não ousam os contrarios do que esperar pelo combate. Não se fez esperar; que, mal sopra o vento de feição, os nossos, desferindo as velas, manobram procurando abordar a esquadra de Mir-Hocem. A nau de D. Lourenço, mentindo a virar, é levada pela forte corrente de vasante para sobre uma estacada, contra a qual se encosta e ameaça de soçobrar. Instam com o capitão-mór para passar a outro navio. Não o conseguem, porque D. Lourenço quer ser o ultimo a deixar a nau, e não ha bateis nem esquifes para conduzir toda a tripulação. Os outros navios, havendo antes seguido o capitão-mór, quando chegam a surgir é em tal distancia d'elle, que não podem vencer a impetuosidade da corrente para d'elle se acercarem, nem com os navios, nem com os bateis.
Posto em tão grande aperto, a nau de D. Lourenço é rijamente accommettida. Crivada de balas, completamente alagada e assente no fundo, continúa ainda a vomitar a destruição dos inimigos, que se succedem e substituem mais promptamente do que a morte os colhe e arrebata no furor da lucta. E a bandeira do capitão-mór só desce da gavea quando uma bala, levando as duas pernas a D. Lourenço, deixa a nau accommettida de toda a força da armada inimiga, defendida apenas por 24 portuguezes—por 24 heroes! Entregam-se elles a Melequiaz, que não aos rumes, e, quando os inimigos entram no destroçado navio, só encontram restos de christãos. Cada gavea é tão acanhada sepultura para os mortos alli accumulados, como a nau é vasto cemiterio. Á entrada do rio se demora a nossa armada, mas não se atrevem os contrarios a investil-a, tão pouco se julgam vencedores, tanto se arreceiam d'aquelles a quem só a força do destino fez que deixassem de vencer.
Quem levará a triste nova ao vice-rei? Urge dar-lhe prestemente noticia do infausto successo. A sorte, designando a Camacho, o obriga a navegar para Cochim. Entretanto adivinhára presago o coração de D. Francisco a morte de seu filho quando viu voltarem sem elle as naus de Cochim e Cananor. Sereno espera a caravela que já se avista. Chega Camacho, e como a occasião é de luctos e tristezas, não de alegrias e festas, passa a fortaleza sem a saudar, e, desembarcando, vae ante o vice-rei, que o recebe grave, mas tranquillo. Estremece Camacho ao aspecto venerando de D. Francisco, o qual, recalcando no peito as ancias de pae extremoso para só deixar apparecer o vice-rei da India, mais severo que urbano, lhe pergunta: «Por que não salvastes á fortaleza, que não é do pae do morto, mas del-rei de Portugal?» Debulhado em prantos, pretende Camacho justificar-se com sentidos lamentos, que sirvam de conforto ao pae que forceja por não parecel-o. «Ora vos ide a descançar, e mandae á caravela que faça sua costumada salva, e eu mandarei na egreja fazer signal pelo defuncto; e o mais deixae, porque quem o frangão comeu ha de comer o gallo ou pagal-o.» Isto responde o nobre Almeida, e nobremente cumpre tal promessa. Só ella o retem na India.