Não ha mingua de ardimentos onde sobram as virtudes cavalheirescas; não faltam ousadias onde abunda a fé; não esmorecem o valor e coragem onde o amor da patria campeia altivo por sobre todos os outros sentimentos de um povo.
Treze navios, sob o mando de Pedro Alvares Cabral, largam do Tejo, e, ou para se desviarem das calmarias do golphão de Guiné, ou levados pela impetuosidade do vento, ou por suspeita de que podem encontrar nova terra, ou ainda outro caminho para a India, tanto se afastam da costa de Africa que aos 43 dias de viagem descortinam um monte, a que chamam Paschoal, da paschoa cuja festividade então era. Navegam ao longo da costa procurando um surgidoiro, e tão bom e tão abrigado o encontram, que, ferrando n'elle toda a armada, lhe dão o nome de Porto Seguro.
Constroe-se e levanta-se na praia uma grande cruz, celebra-se a primeira missa n'aquellas regiões, e pelo nome de Vera ou de Santa Cruz é designada a nova terra abordada por Cabral.
Ficam alli dois homens e uma cruz. São decorridos 364 annos, e a cruz domina e protege aquelle vasto imperio. Á sombra da cruz de Cabral repoisaram os homens de 1500—a cruz de Christo tem defendido durante mais de tres seculos a terra de Cabral. E se trocaram pelo de Brasil o primitivo nome, não poderam trocar por outra a primeira edificação que alli fizemos, o primeiro monumento que alli levantámos e o primeiro signal que alli deixámos. É bello meditar como através dos seculos, se afigura ainda hoje pairar sob o ceo brasileiro o symbolo de paz e fraternidade deixado por Pedro Alvares. Possa o emblema da redempção guardar e ser o eterno defensor dos nossos irmãos na terra de Santa Cruz!
Destacado Gaspar de Lemos para o reino com tão fausta nova, veleja a armada a 2 de maio, soltando rumo para o temeroso cabo da Boa Esperança. Alli, em desastrosa tempestade, perece Bartholomeu Dias; e assim pôde o tormentoso cabo tomar de quem o descobriu summa vingança. Prosegue Cabral, e, visitando a costa da Arabia e da Persia, vae a Calecut, a Cochim e Cananor, d'onde regressa a Portugal trazendo embaixadores a el-rei.
João da Nova sae de Lisboa, e caminho da India encontra a ilha da Ascensão, avista a ilhota ou baixio que recebe o seu nome, e ao voltar a Portugal aporta á celebrada ilha de Santa Helena, que dos nossos dias occupa tão larga pagina em a historia da casa real de França e na da politica geral da Europa.
D. Manuel é bastante prudente para pensar em tudo, para a tudo attender; não despreza nem olvida o descobrimento de Cabral, e para aquellas terras envia o florentino Americo Vespucio, que, reconhecendo-as, visita a costa, chega ao Rio da Prata, segue para o sul, e se torna ao Tejo para novamente ir áquellas regiões e adquirir a gloria de deixar o seu nome ao novo continente, primeiro avistado e visitado por outros navegadores.
Entretanto reclama a India a mais séria attenção. Os moiros, surprehendidos no trato exclusivo d'aquelle vasto emporio, ousam tudo, desde a perfidia até á guerra, para prohibir o commercio aos portuguezes. Incitam os naturaes, e, por mil industrias, armam ciladas, movem contestações e provocam combates taes que fazem perigar o nosso estabelecimento n'aquellas apartadas regiões. Levaramos á India a paz, e pediamos em troca da nossa ousadia e esforço a liberdade de commerciarmos; tornaram-nos a traição e a guerra em troca d'aquelle pacifico intuito. Urgia mostrar que, se os navios recebiam especiarias, tambem jogavam possante artilheria; que os recem-chegados negociantes eram mais experimentados ainda nos botes e estocadas, nas lides e nas pelejas, do que no trafego das quintaladas; que, finalmente, se a cruz de Christo arvorada nas bandeiras, e exposta nas velas das naus e galeões, não dizia guerra, não podia tambem servir de menosprezo nem de symbolo de affronta e irrisão para quem a buscára por egide e trophéo.
Predissera o illustre Gama que daria o Samorim trabalhos e perda de fazendas e de vidas. Ao Gama incumbe D. Manuel de voltar á India, para castigar o senhor de Calecut, assentar paz e duradoiro trato com aquelles povos que o bem merecerem, deixando alli navios para guardar e proteger os portuguezes e seus alliados. Vae D. Vasco, confiado na propicia estrella que lhe fôra guia e pharol; vae segunda vez á India aquelle que depois inspira confiança aos assustados companheiros, bradando-lhes:—«Coragem! o mar estremece afflicto debaixo dos meus pés; assim se mostra timido o vencido ante o vencedor.»
Tres divisões, compostas de naus, caravelas e galeões, capitaneadas pelo Gama, dão as velas ao vento e singram para o Oriente.