Somos chegados ao anno de 1486. Bartholomeu Dias, Pedro Dias (seu irmão) e João Infante saem de Lisboa em tres navios; demandam o rio Zaire; seguem para o sul; assentam o padrão de S. Thiago na Serra Parda ou Rosto de Pedra; surgem na angra que denominam das Voltas, pelos muitos bordos que fazem infructiferamente para montar a ponta do sul, a qual guarda ainda hoje o primitivo nome—cabo das Voltas. Correm d'alli para o sul, e quando, passados treze dias, governam a léste, alguns mais dias se passam sem darem vista da terra. Navegam então para o norte e ferram a bahia dos Vaqueiros. Costeiam a terra, e, avistando um ilheu, n'elle deixam o padrão que lhe dá o nome da Cruz. Consegue Bartholomeu Dias, contra a mór parte dos votos, continuar para o norte, e, entrando primeiro o navio S. Pantaleão n'um rio, alli fundeiam. De João Infante se fica chamando este rio, nome do commandante do S. Pantaleão, e não, como diz um auctor estrangeiro, por ser o nome do infante D. João, que, segundo o mesmo auctor, ia n'esta viagem.

Quer Bartholomeu Dias levar por diante a empreza, proseguindo a navegação ao longo da costa; não lh'o consentem, porém, os seus companheiros, e, unanimes em seus votos, obrigam o intrepido descobridor a dar as velas ao vento em direcção á patria. Alguns dias depois avista um formidavel cabo, e, pelas tormentas que o assaltam proximo a elle, chama-lhe cabo Tormentoso. Assente n'aquellas immediações o padrão de S. Filippe, e tocando em differentes pontos, vem finalmente largar ancora no Tejo.

Bartholomeu Dias dobrára o extremo de Africa. Conseguíra vencer a empreza de 75 annos de trabalho. El-rei D. João II avisadamente substitue o nome de Tormentoso, dado pelo ousado navegador ao temivel cabo, pelo de Boa Esperança. Previdente signal de quantas esperanças lhe surgiam na mente e no coração. Previdente resolução para despertar arrojos e afugentar temores. Mas, assim como o cabo da Boa Esperança havia de fazer esquecer o das Tormentas, e Vasco da Gama sobrepujar a gloria de Bartholomeu Dias, assim tambem ao sr. D. João II não pertencia mais do que dizer á Europa que havia outro caminho para a India. Ao rei venturoso cumpria aproveitar os aprestos, proseguir no emprehendimento e receber os feudos do Oriente.

No sempre memoravel dia 8 de julho de 1497 saem do Tejo, do ancoradoiro do Restello, quatro navios: o S. Gabriel, de 120 toneladas, commandado por Vasco da Gama; o S. Raphael, de 100 toneladas, commandado por Paulo da Gama; o Berrio, de 50 toneladas, commandado por Nicolau Coelho; e uma nau de 200 toneladas, commandada por Gonçalo Nunes.

Se o rei, em Montemór, recebe um juramento de Vasco da Gama ao entregar-lhe a bandeira da ordem de Christo, se os freires da mesma ordem são conforto na despedida e rogadores pela prosperidade da viagem, no ceo, junto ao throno do Creador, ainda mais valiosa supplica se ergueu. Os filhos de D. João I oravam de certo pelos nautas que iam rota batida procurar o Preste João e o rei de Calecut.

Mas sigamos a esteira d'aquelles navios. Vae n'elles todo o futuro de um reino. N'elles não, vae n'um sómente, porque sómente a um homem podia confiar-se o futuro da patria, e esse homem havia de ser Vasco da Gama. Sigamos a esteira d'aquelles navios; nem pareça menos util, nem menos digno da maior altura, narrar e memorar ainda as menores particularidades em factos que são fastos, em descripções que se tornam por si mesmas, sem galas nem atavios, sem pompas nem louçanias de linguagem, verdadeiras epopéas, epopéas que exaltam a coragem de um povo, que avivam memorias gloriosas, que fazem pulsar apressado o coração, enthusiasmar o pensamento, expandir venturosa a alma, reverdecer e florir a arvore santa do amor patrio. Sigamos pois a esteira d'aquelles navios.

Dão elles as velas ao vento, avistam as Canarias, e, passando ávante, vão ancorar na ilha de S. Thiago. Refeita a aguada, navegam ousadamente para o sul, e durante tres mezes só vêem ceo e mar. Governam para a costa, e, descortinando a terra, ferram n'uma grande bahia, que chamam de Santa Helena. É ahi ferido o capitão-mór, por causa de Velloso encontrar aquelle celebre oiteiro mais facil de descer que de subir; corregem os navios, e, velejando novamente, passam o cabo da Boa Esperança em 22 de novembro, á pôpa arrasada. Entram na angra de S. Braz, desmancham a nau dos mantimentos; e proseguindo avante, luctando com a impetuosidade dos ventos e das correntes, denominam do Natal a terra que costeiam; visitam aquella que chamam da Boa Gente, para depois entrarem no rio dos Bons Signaes. Aportam a Moçambique, e, livres das traições dos seus naturaes e dos de Mombaça, surgem em Melinde, onde com bom gasalhado recebem pilotos do paiz. Novamente desferindo as velas, vão ancorar em Calecut aos 20 de maio de 1498. Portugal tinha lançado uma ponte para a India!

Recebidas as amostras do Oriente, tomados alguns indigenas, supportada a perfidia do Samorim, oppondo sinceridade á traição, attenções e benevolencias aos desdens, lealdade á aleivosia, paz á guerra, o Gama, trajando lucto pelo irmão e companheiro, Paulo da Gama, fallecido na ilha Terceira, vem entrar no Tejo a 29 de agosto de 1499[1], e entregar el-rei D. Manuel as primicias da India, para receber em paga o titulo de dom.

Alvoroçam-se o reino e a Europa com tal nova. Calculam-se e pesam-se os proventos que podem derivar do extraordinario descobrimento. Ás opposições de longo tempo enraizadas contra as longinquas navegações succedem o afan e delirio com que á porfia pretendem todos visitar as riquissimas paragens d'onde receberam as preciosas amostras conduzidas pelo Gama. Importa, por outro lado, não tanto mandar á India os productos do solo portuguez, mas patentear alli o nosso poderio, para secundar a demonstração que deramos da nossa ousadia. E isto importava não só com respeito ao Oriente, senão, e ainda mais, por interesse da Europa.

Mal descança o rei no palacio da Alcaçova. Á Ribeira o prendem de continuo os aprestos e vigilias para novos e mais largos apercebimentos. Começam a levantar-se os paços da Ribeira com o rapido construir das naus e galeões.