Mal reconhecem os moiros a perda que acabam de padecer, quando prestes se ajuntam, pondo em apertado sitio as dezenas de portuguezes que bem defendem a nova perola engastada na coroa dos nossos reis. Vôa alli o heroico principe, como ferida leoa a quem pretendem roubar o filho querido das suas entranhas; e se a novidade do seu apparecimento espalha o terror pelos inimigos, não lhes deixando sentir mais uma vez a tempera da sua adaga, os sitiados, sob o mando do illustre conde de Vianna, irrompem e desbaratam os sitiantes, provando-lhes que até na propria Africa os cavalleiros da Cruz não cedem aos adoradores do crescente um palmo de terra, ainda que para resgatal-o não baste todo o sangue de um heroe, nem toda a vida de um martyr.

Levantado o cêrco, por tres mezes se demora o talentoso infante indagando e perscrutando dos viajantes e dos mais instruidos noticias que ambiciona recolher d'esse vasto continente tão desconhecido e tão differentemente julgado. Volta a Portugal o esforçado principe, e mais instantes e mais repetidas são as viagens e navegações sem fructo. O temor prende os nautas ante o formidavel cabo a que chamam Bojador, pelo muito que boja para o mar. As correntes parecem-lhes tão impetuosas e difficeis de vencer, que receiam ser arrebatados e envolvidos por ellas. A effervescencia (rebentação) que observam junto d'elle inspira tal receio, que os mais audazes não se atrevem a porfiar para montal-o.

Nem por isso deixam de continuar as tentativas. Em 1418, Bartholomeu Prestrello, um d'estes navegadores, levado por uma tempestade para o sudoeste, quando espera encontrar a morte nas ondas, eis que descobre terra, para ella se dirige, e a que dá o nome de Porto Santo, pelo abrigo e repouso que alli encontra. Vem trazer esta alegre nova ao magnanimo Henrique, e logo no seguinte anno volta á ilha de Porto Santo, acompanhado por dois navios commandados por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, levando os primeiros elementos da futura colonisação. Prestrello regressa a Portugal; Zarco e Tristão Vaz, descortinando ao mesmo rumo no horisonte um ponto escuro e permanente, para elle se dirigem, e abordam á ilha da Madeira.

Estes primeiros fructos não desviam a attenção do perseverante principe do seu principal intuito. Tem elle a satisfação de fazer dobrar em 1429 o cabo Bojador. Gil Eannes, natural de Lagos, conseguiu a façanha. E façanha foi esta para epocha em que a sciencia de navegar era em demasiado atrazo para se oppor não só aos perigos visiveis, que estes eram os menos de temer, mas, e particularmente, aos perigos fabulosos que a tradição conservára e o vulgo repetia a medo; tão tenebrosos se afiguravam.

Registam as chronicas e as historias maritimas os preconceitos, não só do vulgo, ou dos menos instruidos, mas ainda de estudiosos e pensadores, de que, passando para o sul de certa latitude, a raça caucasica se tornava negra como a ethiope; de que o mar era tão baixo, que nenhum navio o podia navegar, formando apenas um vasto parcel; não faltando tambem a affirmativa de que o ardor do sol se tornava tão intenso, que ninguem podia viver em taes latitudes. Finalmente, ainda se juntava a este desanimador quadro de receios o boato de visões e phantasmas, com todos os correspondentes attributos do sobrenatural, e com todas as imaginações mais do que sufficientes para intimidar então os mais esforçados. Foi, pois, uma façanha este conseguimento de Gil Eannes, e façanha egualada aos trabalhos de Hercules.

Em 1431 sae do Tejo Gonçalo Velho Cabral a descobrir terras para oeste. Chega ás Formigas, e com esta novidade vem para Lisboa. Volta no anno seguinte áquellas paragens, e aporta á ilha que denomina de Santa Maria. Agita-se o povo de Lisboa sobre a conveniencia dos descobrimentos, oppondo razões de peso e gravidade áquellas que lhe apresentam de seductora vantagem. Peleja-se a infausta batalha de Tanger. E por estas razões, ou por se entregar unicamente a Deus e a essa religião que se chama amor da patria, o duque de Vizeu sequestra-se ao bulicio do mundo, deixa a capital, e vae fundar no Sacro Promontorio a primeira eschola de nautica e o primeiro observatorio, primeiros não só de Portugal, como dizem escriptores portuguezes, primeiros da Europa, como accordes testimunham em quasi unanimidade os historiadores estrangeiros.

Levantada a Villa Nova do Infante, reunidos em Sagres os mais esclarecidos varões, alli se discutem as theorias mais adiantadas, e se lançam os primeiros fundamentos do mais vasto imperio colonial; e d'alli partem ousados Antão Gonçalves, Diniz Fernandes e Nuno Tristão. Descobrem o Senegal, passam Cabo Verde, e chegam ao Gambia. Tambem d'alli sae Luiz Cadamosto, veneziano ao serviço de Portugal, que aporta ás Canarias, e chega ás ilhas de Cabo Verde. Gonçalo de Cintra deixa o seu nome á bahia onde deixa a vida pelejando em traiçoeiro e desegual combate com os indigenas. Soeiro Mendes levanta o castello de Arguim.

Somos chegados a uma epocha fatal. O excelso infante D. Henrique baixa á sepultura. Mas não morre, porque homens como D. Henrique não morrem. D'além da campa continúa a vigiar, proteger e guiar os portuguezes. E se a morte—em captiveiro—de seu irmão, o infante santo, devia de ser nuvem negra a escurecer-lhe os derradeiros momentos, as ilhas da Madeira, dos Açores, e dezoito graus da terra africana, seríam outros tantos astros a illuminar-lhe o caminho da eternidade, e a apontar-lhe a futura grandeza de Portugal. Repousa o inclito varão. Sirva-lhe de funebre distico o moto predilecto; e talent de bien faire seja o epitaphio do immortal infante D. Henrique.

Proseguem os descobrimentos. Pedro de Cintra chega ao cabo de Santa Maria. Pedro Escobar e João de Santarem vão á Mina. Deixa Lopo Gonçalves o seu nome ao cabo que avista. Fernando Pó descobre as ilhas de S. Thomé, do Principe, de Anno Bom, e a Formosa, que depois tomou o seu nome. Manda el-rei D. João II a Diogo de Azambuja que levante o castello de S. Jorge da Mina, e expede Diogo Cam para proseguir no reconhecimento da costa. Em 1484 acerta Diogo Cam com o rio Zaire, desembarca na margem do sul, e, tomando conta das terras adjacentes em nome do rei de Portugal, alli assenta um padrão em signal da sua passagem, e para assegurar no futuro a posse que hoje nos pretendem contestar. Ainda em 1859, passados 375 annos, tivemos o gosto de ver e tocar o pouco que existia de tão valiosa reliquia. Seguiu Diogo Cam para o sul, e no cabo Negro levantou padrão egual ao que deixára no Zaire ou Congo.

Mas el-rei D. João II havia comprehendido o previdente intuito do infante D. Henrique; conhecêra toda a vantagem e medíra todo o alcance do emprehendimento d'aquelle glorioso principe. Ambicionava elle chegar á India. Á India, ao paiz das maravilhas. Á India tão fabulosamente descripta. Á India sem passar por terras do arabe ou do persa, e sem necessitar dos navios de Veneza. Rasgado se offerecia já então o horisonte. Devassados os mares até ao cabo Negro, eram vasto campo para largas experiencias e pleitos de ardidez. Se os navios sulcam as aguas em porfiosa procura do extremo ponto de Africa, embaixadores mais ou menos officiosos são mandados por terra com apertadas instrucções e direcção indicada em busca das terras do Preste João das Indias. Archiva a historia os nomes de Pero da Covilhã, ou João Peres da Covilhã, e de Affonso de Paiva, como dois d'estes devotados emissarios.