Importava a terceira razão ao conhecimento, que instava obter, de qual era, e até onde chegava, o poderio dos moiros, que se dizia muito maior do que commummente se pensava.
Assentava o quarto fundamento no desejo de encontrar algum principe catholico, que, por amor de Christo, o ajudasse contra os inimigos da fé, na guerra que lhes movêra durante trinta e um annos, sem auxilio de rei nem de senhor de fóra de Portugal.
Era, finalmente, o quinto motivo o grande desejo que havia de dilatar a santa fé e trazer a ella todas as almas que se quizessem salvar, chamando-as ao gremio da egreja, e dando-lhes ingresso na religião christã.
Não podêmos deixar de accrescentar a estas cinco algumas outras razões, não indicadas pelo erudito chronista, mas que certamente se apresentaram ao espirito do sabio infante, e que, se não foram as deliberativas, deviam contribuir efficazmente para o decidir em seus tão porfiados como aventurosos commettimentos.
É claro que o illustrado principe havia de ter noticia das navegações dos antigos povos, navegações mais ou menos fabulosas, mais ou menos longinquas, como foram as do carthaginez Hannon, de Sataspes, de Polybio, de Meneláo, de Necháo, de Eudoxo, e ainda outras cuja descripção tem chegado até aos nossos dias. N'algumas d'estas navegações se dizia haver sido costeado todo o continente de Africa, saíndo de Alexandria, passando as columnas de Hercules, dobrando a grande fronteira de Africa, entrando no mar Erythreo e ancorando em Suez. Ao Ophir de Salomão, á viagem de Marco Polo ao Cathayo no seculo XIII, devemos juntar as antigas navegações dos portuguezes, que já em tempos do sr. rei D. Affonso IV chegavam ás ilhas Canarias, ou antigas Fortunadas, navegações de que especialmente o estudioso infante devia ter cabal conhecimento, e que muito influiram de certo para apressar os primeiros passos em tão arriscada empreza.
Chegára o infante D. Pedro de Veneza, onde residíra por muito tempo. Era então, no seculo XV, Veneza a nação que distribuia por todos os portos do Mediterraneo os productos da Asia. Tinha Veneza as mais estreitas relações com o Egypto e com a Persia. Os venezianos devassavam aquelles riquissimos emporios, e conheciam, como nenhum outro povo, a grandeza do Oriente. Eram elles quem melhor podia informar ácerca do tão celebrado reino do Preste João, principe que se dizia pertencer ao gremio do catholicismo, possuir vastos dominios, numerosos subditos e grandes thesouros. Presumimos, portanto, que traria o infante D. Pedro basta colheita de taes noticias, que mais deviam estimular os aventurosos desejos de seu irmão; de seu irmão, que, dotado de esclarecido entendimento, não podia forrar-se ao desgosto de ver que Portugal, tendo repellido os moiros para fóra d'esta terra, jámais conseguiria alargar os seus limites territoriaes, avançando as fronteiras cercadas já por principes catholicos, senhores de poderosos exercitos. O mar, porém, banhando Portugal em toda a sua extensão, vindo beijar as suas praias e morrer debatendo-se contra os seus rochedos, estava como que convidando o nobre infante a buscar n'elle, e por elle, os dominios que a terra da Europa lhe recusava.
Apropriada era a occasião. A espada do mestre de Aviz ganhára a coroa de D. João I; e se o heroico valor do condestavel alcançára em Aljubarrota firmar o solio do monarcha, a marinha portugueza não ficára ociosa, nem deixára de contribuir efficazmente para a independencia da patria. Foram os navios portuguezes que, indo ao Porto, á sempre leal cidade do Porto, buscar os reforços de que necessitavam os oppressos sitiados em Lisboa, conseguiu, a despeito das balas da armada castelhana, com a qual travou rijo combate, e da sentida morte do valente commandante Ruy Pereira, desembarcar os soccorros tão opportunos, que, obrigando o monarcha hespanhol a levantar o cêrco de Lisboa, o predispoz para as tregoas celebradas em 1411 entre as duas coroas.
Chegára, pois, o momento. De Lisboa saíram logo em 1412 os primeiros navios, mandados pelo talentoso infante com ordem para costear a terra de Africa, e, dobrando o cabo de Nam, passarem ávante.
Mas nem bastavam ainda as cautelas tomadas, nem as relações obtidas, nem as concebidas esperanças. Faltava ainda, antes de proseguir no emprehendimento, assegurar a partida e a chegada tranquilla dos modernos navegantes. Urgia alcançar um ponto que, servindo de base ás futuras operações, fosse o centro d'onde podessem velejar, e aonde acolher-se do rigor dos temporaes os navios que saíam a descobrir. Mais ainda instava que esse ponto fosse situado por modo asado a impedir as depredações e a estorvar as piratarias dos corsarios barbarescos, os quaes, desembocando do estreito, cairiam de certo sobre os pacificos mercadores, e, roubando-os e levando-os ao captiveiro, lançariam tal desanimo, que, escarmentados, fugiriam os mais audazes de aventurar-se a tão triste fim, qual era o de escapar á lucta dos ventos e dos mares para ir morrer, carregado de ferros, nos calaboiços dos infieis, ou vergado ao mais rude e violento trabalho, sem que os olhos podessem fitar a cruz de Christo, sem que os labios podessem recitar uma oração á Virgem, sem que os braços podessem estreitar um amigo. Regar com o suor do rosto e as lagrimas do coração a terra dos moiros, morrer morte affrontosa sem escutar as palavras do sacerdote christão, era mais do que morrer. Por isso instava e urgia desde logo evitar previdentemente as consequencias, que viriam tão certas como funestas.
Ceuta, possuida pelos agarenos, satisfazia a todos os intuitos, aguçava todas as cubiças; Ceuta era necessaria ao illustre infante D. Henrique; Ceuta caíu, pois, em poder dos portuguezes no anno de 1415. Se D. Henrique commandava as forças, o rei D. João, como passageiro e combatente, arvorava o balsão da ordem de Christo na muralha mahometana, abrindo brecha a golpes da rija espada por entre a multidão dos islamistas.