Sangue ardente, provada coragem, dilatada intelligencia, animo audaz, transpõem os mares conhecidos, e, dando mundos novos de presente ao velho mundo, fazem a surpreza e o espanto de quem ouve as modernas maravilhas.

Portugal fecha os golphos Persico e Arabico, apodera-se de Malaca; e assim cortados ficam os infindos soccorros que d'alli e por alli vem ao turco. Limitado, apertado n'um determinado territorio, ruge o leão mahometano. Acode Veneza, ferida do mesmo golpe que enraivecera o turco; apresta navios, que, por terra conduzidos ao Suez, no mar Vermelho naufragam ou são destroçados pelas balas portuguezas.

Constantinopla e Alexandria bem sentem o prompto decrescer, o rapido definhar do seu commercio. Veneza estremece ao reconhecer que nunca mais os seus navios transportarão para todos os portos do Mediterraneo os riquissimos thesouros do Oriente.

Que importa o alongado caminho? Se o mar dá a morte, a terra do turco dá a escravidão, impõe a apostasia, e com a tortura moral a agonia lenta e de todos os instantes, muito peior do que a morte.

Franqueado o novo caminho para a India, quem mais passará por terras inimigas do nome christão?

A Europa, commovida, fita o attento olhar no horisonte. Deixa a cidade de Constantino, abandona Alexandria, esquece Veneza e o Mediterraneo, e vem saudar o Tejo!

Era tempo de que a Europa toda viesse aqui pagar reconhecido preito e sincera homenagem á portugueza heroicidade. Aprestam-se navios, imitam-se os modelos lusitanos, correm-se mais ousadamente as costas, visitam-se com frequencia os differentes portos, robustecem-se os estados, e o turco empobrecido, definhando a olhos visto, sustenta com mão trémula o alfange que por toda a parte cede aos botes da espada portugueza. E tres navios e 160 homens obtiveram, ou antes Vasco da Gama obteve, o que não conseguira toda a Europa caminhando unida em concertados laços, guiada pela palavra de Pedro e animada por Godofredo. Nem S. Luiz, nem Ricardo, nem Alexandre VI, nem Sobieski, nem todos estes heroes feriram tão certeiro golpe no coração do imperio mauritano como n'elle abriu a quilha do S. Gabriel!

Eis as consequencias que resultaram dos descobrimentos dos portuguezes nos seculos XV e XVI; eis o motivo por que, do ultimo logar em que era contada esta nação, passou a occupar, se não o primeiro, o mais distincto, o mais glorioso, o mais invejado logar no decimo sexto seculo.

Eis as consequencias que resultaram para nós. Entendo que não devo descer a minucias, nem citar este ou aquelle provento colhido com os descobrimentos que fizemos. Limitar-me-hei a accrescentar que foram taes as consequencias, que ainda hoje, decorrido tão grande lapso de tempo, são-nos honra e gloria para oppôr aos desdens e affrontas, que se tornam villanias de quem as emprega contra aquelles que ensinaram a todos os povos o caminho do mundo.

E seja-me permittido referir-me novamente ao padrão assentado no rio Zaire em 1859, e repetir hoje aqui algumas palavras que então disse ao deixar na praia africana aquelle memoravel symbolo: