O.

O AUCTOR

Este trabalho, nascido em cavaco[[1]] d'alguns amigos, foi fruto d'uma noute: sahiu-nos da penna para o prelo; por isso sirva-nos de desculpa a algumas imperfeições, o pouco tempo de que podemos dispor, e juntamente a boa vontade do auctor.

A ti, meu caro Motta, agradeço-te do coração o favor, com que annuiste á illustração do—Poemeto—accedendo ao meu pedido, assim como ao dos outros amigos, que o mesmo te rogaram.

Ferreira.

[I
Ignoto Deo]

[I
INVOCAÇÃO]

Musa, eu quero ir ó gigantesco enleio
Dos litt'ratos, que chamam de mão cheia;
Eu quero o meu candil levar em punho
Á festa, que de si é uma epopeia.

Por isso, ó Musa, ó nume encantador!
Ó sombra indefinivel de mulher!
Não me deixes a mente aqui dormir,
Leva-me á festa, quero lá viver.

Vem, tu, que a tantos gloria has dado e nome,
De papoulas a minha fronte ornar.
Vem tirar-me das varzeas do Mondego,
E dá-me inspiração, quero cantar.

Lá n'esse patrio lar de rouxinoes
Quero meus carmes no arrabil tanger.
Leva-me, musa, leva-me um cantor
Que eu sinto o genio minha mente encher.

E ha de, qual balão em dia tenebroso,
Subir até sumir-se pelos ceus;{10}
Encherá a eternidade, o espaço, tudo,
E offuscará esses litt'ratos—pygmeus.

É um cego que o caminho lhes aponta!
E os leva pela mão p'r'o seu altar!
Cordeiros innocentes, d'outras eras,
Que vão de sancto a capa alli buscar.

Satellites d'um sol, sem vida e só!
Qu'esparge apenas moribunda luz,
Como hão de atravessar constellações
Tão ricas de fulgor, que mui seduz?!

Não podem como as aves agoureiras,
Cantar lá d'alta torre em noute escura,
E dar a quem pertence o gonzo immenso,
Que o futuro nos dá de luz tão pura?!

Que importa o caminhar da vaga ardente?
Não vae ella nas praias repousar?
Que importa, pois, tambem a luz d'um foco,
Se vae n'outro mais forte a luz findar?

É vaga aspiração de gente tosca
Querer lyrios colher n'um matagal!
E desfolhar as rosas tão mimosas!
Pr'a dar-nos um carvão, puro crystal!!..

.....................................

Acaso achareis vós tão bello gosto
Aos frutos succolentos d'um pinheiro,{11}
Que não vejaes, por trás d'escura rama,
Caminhar a rapoza ao galinheiro?

Não creio n'essas cousas n'este sec'lo,
Em que tudo caminha ao natural,
Embora esses criticos asseverem
Ser entrudo constante em Portugal.

As mascaras de cêra duram pouco,
Das outras é mui fraco o seu cartão:
Hão de os bailes portanto ser famosos
N'outras eras d'amor e inspiração.

Vamos, musa, porém, a outros destinos,
Mais franca seja, pois, nossa missão;
Subâmos pela escada do bom senso,
Que importa a gargalhada d'um villão[[2]].

Agora, minha musa, á festa vamos
Dos litt'ratos, que chamam de mão cheia;
Eu quero o meu candil levar em punho
Á festa, que de si é uma epopeia.{12} {13}

[II
SIT-LUX]