[II
A MUSA—SALOIA]
Adeus, minha musa qu'rida,
Vens hoje tão festival;
Trazes as faces tão lindas
Como a rosa no rosal.
Onde vaes tão elegante,
Mimosa como o zagal?—
—Venho dar-te este meu braço,
Quero ter uma rival.—
Se tu és tão donairosa
Nas tuas vestes singelas,
Como podem captivar-me,
Captivar-me as mais donzellas,
Se eu não gosto d'atavios,
Nem bellezas, que tem ellas?
—Póde ser; mas lá no ceu
Ha inda tantas estrellas.—
Eu não quero, minha musa,
'Star sujeito á lei fatal,
Pois é crime tão horrendo!
O pensar bem no ideal:{16}
E depois mestre Castilho
Se nos manda p'r'o hospital?!
—É desgraça na verdade!
Pelletan não lhe quer mal.—
Oh! como vens conceituosa
D'essas phrases no vestir!
Juntas mais á galhardia,
Tanta prenda, esse sorrir...
Quero, pois, amar-te; e muito
Á força do meu sentir.
—Mas eu sou tão singelinha,
Tenho no campo o existir!—
Mais viveza em ti encontro,
Mais pureza em teu amar;
O crepusc'lo da cidade
É vaidoso em seu cerrar;
E os prazer's, que lá s'encontram,
Vão como a brisa do mar.
—Quer então amar-me muito,
Quer levar-me ao seu altar?—
Porque não, mulher festiva?
Has de dar-me o teu abraço,
E inspirar-me n'essas tardes
Em que o sol é já mui baço,
E se perde no horizonte
Como a nuvem n'esse espaço.
—Porque não, meu anjo lindo?
Vamos ambos pelo braço.—{17}
Tu has de ir comigo á festa,
Como a mariposa á flor,
Has de lá n'essa folgança
Fazer de mim trovador.
Tu não sabes quanto é bello
Ser inspirado d'amor?!
—Vamos primeiro ao mercado,
E depois serás cantor.—
Vamos primeiro ao mercado?
Vamos lá, minha cecem.
Tu que levas no cestinho?
Levas ovos ao vintem?
Ou então são alguns patos.
Que vaes ver se quer alguem?
—Não senhor; é outra cousa,
Muito melhor, muito além.—
Diz-me cá: então são uvas,
Ou de Baccho o seu primor?
Eu não divulgo o segredo
Em paga de tanto amor.
Diz-me então se são gallinhas,
Se são rosas sem olor?
—Não senhor; são outras cousas:
São livros de trovador.—
São abortos d'estes tempos,
Que vaes á praça vender?
Cuidas tu ser isso lindo?
Ser officio de mulher?{18}
Pois, musa tão feiticeira
Não deve d'isso fazer.
—N'esse caso ahi vão p'ra lama,
Ahi vão p'ra quem quizer.—
Tens agora mais feitiços
Ao nascer d'esse desdem:
Olha, pois, para os taes livros
Como não quel-os ninguem:
E tu, musa, tão contente
Com valor nem d'um vintem.
—Ora, adeus; deixamos isso;
Caminhâmos mais p'ra além.—
.......................
.......................
.......................
Minha musa, 'stamos juntos
Da cigarra e da folgança:
É aqui onde os litteratos
Tem firmada a sua esp'rança:
E tu, musa, dá-me cantos,
Dá-me o escudo, dá-me a lança...
—Ora, pois, espera um pouco,
Vamos ver a contradança.{19}
[III
Mons parturiens]
[III
O PARTO]
Estendeu seu manto a noite;
O sol escondeu o brilhar;
As trevas são o que reinam;
A luz perdeu-se pelo ar;
As estrellas que o ceu tinha
Perderam todo o fulgor;
Os echos emmudeceram;
A terra não diz amor;
A corrente perdeu o brilho,
Voltou á fonte natal;
As flores seccaram todas,
Seccaram todas no val';
O sol escondeu a fronte,
A lua seguiu-o tambem;
Os astros se sepultaram
Nas trevas que o mundo tem;
As aves já não tem canto,
Tem medo da solidão;{22}
A terra já não responde,
Não falla á voz do trovão:
É tudo negrura immensa,
Ou cataclysmo infernal;
Oh! é ave que, perpassando,
Nos trouxe o genio do mal...
...............................
Mas, emfim, lá vem cahindo
Um espectro n'amplidão;
Oh! que formas nunca vistas
Que elle traz! que negridão!
Tudo treme! n'esse instante
Parece o mundo acabar;
Ou já o ceu que pouco a pouco
Quer sobre nós repousar.
Oh! que gritos! que soluços
Solta o filho junto á mãe!
Ao ver perto o grande abysmo,
Que vem buscal-o tambem.
O pisco levanta as pernas
Para sustental-o no ar;
As aves vão timoratas
Com elle se nivelar.
Outros fogem para a fralda
Do monte que sobe ao ceu;{23}
Outros, emfim, tomam armas...
Arcabuzes... que sei eu?
Tudo busca um doce abrigo...
Querendo matal-o no ar;
Mas o espectro vem descendo
E mui suave em seu andar.
E quando todos attentos
Fitavam triste a visão,
Uma rajada de vento
Arremessou-a pr'o chão.
Nas alturas de Lisboa
Parou ella, azas abriu:
Desprendeu mil gafanhotos!
Cousa assim nunca se viu!
Tinham fórmas mais que humanas
Pois algumas nunca as vi!
Uns cavallos com taes azas!
Voando tanto por si...!!!
E depois, como voavam!
P'ra terra tanto a descer!
Estas cousas, tão confusas!
Nunca as pude comprehender.
E tambem já na cidade
Desgracas aconteciam,{24}
Que gritos da turba tremula!
Que soluços lá se ouviam!
Os pinheiros, cuja fronte
Tinha ainda algum verdor,
Largaram da terra as pernas,
Galopavam com fervor.
Mas que pobres! na viagem
Maceraram face linda!
Mas qu'importa se chegaram
Com elles á festa infinda?
Chegaram junto da olaia,
Onde a cigarra cantava;
Pasmaram todos viventes;
Era o saráo começava.
E a minha musa atrevida
Fugiu de junto de mim...
.............................
Pois hei de lhe dar pateada
Se a ouvir fallar por fim.{25}