Era um dia de festa.
Pelos ares
Já nada havia d'esse drama, que
Causára tanto horror: era mui linda,
A côr nova que nascia no horizonte,
Como a aurora, que após a tempestade
Vem, mimosa actriz, lá por sobre as serras
Dar vida ao mundo todo que a anhelava.

O espectac'lo que os ar's tinham contido,
Passou de negridão á luz do dia;
E as aves que, nas pernas do tal pisco,
Buscaram a guarida á eternidade,
Já nas franças das arvores s'erguiam,
Soltando seus cantar's, todos festivos.
Já mui perto d'olaia gigantesca,
Onde a cigarra desprende sua chiada,
Ensinando moral, philosophia,
Estava um certo vulto, mui sombrio!
(E d'alampada na mão como Diogenes!)
Soltando algumas phrases pouco ouvidas.
Mesmo assim, como apito em larga praça{28}
Ou de folles qual gaita d'espavento,
Ou mesmo o som alegre d'um pandeiro,
Juntou em volta a si com mil gaifonas
Um sem num'ro de ser's, todos galantes:

Chegaram patos. Gallos e gallinhas
Subiram a um poleiro que ali 'stava,
E já d'altiva fronte, qual cegonha
Ensinaram o seu mestre, lá piaram.

Mas não termina aqui o ajuntamento,
Porque lá fóra, longe, n'um roçado,
Vem mettido, qual cesto d'azeitonas
Na trouxa d'um gallego mui sebento!
Patusco, que se diz ser um litt'rato.

Parou, por fim, á porta sem convite;
Mas o mestre, que a tudo dera entrada,
Levantou-se do banco de cortiça
E foi levar a mão ao seu conviva.
Depoz ali gallego o longo fardo,
E foi ás gargalhadas no caminho
'Sperar um passageiro á barca sua.

Soou por fim a hora.
Disse o mestre:
«Está aberta a sessão.»
—Peço a palavra.—
Disse um.
—Quero fallar—
Disse outro além.{29}
—Os meus versos não ficam no tinteiro
D'além mais outra voz soou tremente.

Na balburdia immensa, que nasceu
Dos litt'ratos, que qu'riam fallar juntos,
Tocou mestre d'enfado a campainha.

Cada um fallou, por fim, por ordem sua,
Abraços recebendo ao mestre ingente,
Como em honra e louvor da nova fama
Que de vós ha de encher vossa Lisboa.

De Magalona contam cousas raras,
De Filinto, sei eu, nada disseram;
Mas de Carlos, o magno, o grandioso,
Como de moura e fadas contos bellos,
Foi, emfim, o que lá muito cantaram.

Era a hora em que o saráo já se finava,
E os pegasos olharam para o ceu;
Mas em paga d'amor e de saudade
A todos quer dar—mestre—uma lembrança,
Pintando-lhes nas costas, n'um abraço.
As armas... que já muitos captivaram.{30}
{31}

Caro amigo

Na tua obra nada mais sou que o pobre official executando as instrucções recebidas. Li, e procurei dar vida a pensamentos mais expressivos do que esses traços lançados sobre a pedra, a teu pedido. É pequena ou nulla a gloria, que me cabe; mas, não tendo a louca pretenção de preparar uma estrada larga para eras novas, não me curvarei para apanhar a luva, lançada ás cegas pelo apos-tolo do progresso futuro. A minha cigarra nunca me aconselhou a rebaixar o que ja applaudi em publico, a achar falta de bom-senso e bom-gosto onde ja encontrei esperançosos talentos![[3]] é que a minha não canta na copa da olaia; mas na consciencia, que sempre terá repugnancia ao ver, tanto contra-senso e ignorancia do presente, em quem se appellida o guia do bom-senso e do futuro!..

Já disse que no Poemeto só tenho uma pequena parte material; e não quero mais. Não me ferem aquellas balas de papel, por que não tenho aspirações litterarias (?), e, que as tivera bem fundadas, não me occuparia em tosquear camêlos!.. Não!.. porque, a responder ás suas judiciosas arguições, pedir-lhe-hia emprestada ou a linguagem de regateira, ou do ridiculo, unica digna de seus espirituosos epithetos.


Desculpa, amigo, estas involuntarias digressões. Vou dar conta do meu trabalho.{32}

A primeira estampa é anterior ao Poemeto. Imagino-te na solidão, perseguido por um genio galhofeiro, que mostrando o nome de teus collegas te faz conceber esse gigantesco enleio, para que pedes á ignota musa te guie.

A segunda é a expressão mais fiel, que pude dar aos dous versos:

—N'esse caso ahi vão para a lama,
Ahi vão p'ra quem quizer.—

Para a terceira escolhi os versos: