Pois bem, o Olimpo é nosso, e Jehovah, agora

Expulsamos-te nós!

A SEMANA SANTA.

I

Não podendo dormir no horror da sepultura,

Na podridão escura
Da terra immunda e fria,

Voltaire despedaçando o feretro chumbado,
E cingindo o lençol ao corpo esverdeado

Resuscitou um dia.

Pairava-lhe no labio o riso fulminante
Com que outr'ora gravou nas crenças virginaes,
Como n'um rico espelho a aresta d'um diamante,
Tamanhas abjecções, sarcasmos tão brutaes.
Mas era ao mesmo tempo o riso heroico e bom
Que os tiranos prostrava em misero desmaio,
Riso a que succedeu o verbo de Danton,
Como a um trovão succede o lampejar d'um raio.
Dormira febrilmente um longo somno inquieto
Em quanto andava o mundo a executar-lhe os planos,
E vinha ver emfim, diabolico architeto,
O estado da sua obra ao cabo de cem annos,
Ó satiro divino, ò monstro da ironia,
Genio que Deus conduz e Satanaz impelle,
Que esmagas hoje o infame, e escreves no outro dia
Com a tinta do enxurro os versos da Pucelle;
Tu és feito de luz e feito de baixesas,
Feito de heroicidade e de protervias más;
Corromperam-te a alma os braços das duquezas
E encarguilhou-te a face o rir de Satanaz.
Rasgas ao mundo novo a estrada do futuro
Cantando ao mesmo tempo o sordido deboche:
És como um Juvenal dentro d'um Epicuro,
Ó arlequim-titan, ó semi-deus-gavroche.
N'esse labio mordente esso sorriso eterno
Faz frio como a ponta aguda d'uma espada;
O teu genio, Voltaire, é como o sol do inverno,
Dá muitissima luz, mas não aquece nada.
Em vão por sobre a paz dos campos desolados
Elle entorna do azul seus vivos esplendores;
Não cantam rouxinoes nas sebes dos vallados,
Não faz nascer o trigo e germinar as flores.
É que nunca soubeste o que é a dôr profunda
Que estalla fibra a fibra os grandes corações;
É que nunca choraste, ó Prometheu corcunda,
Como Dante chorou, como chorou Camões
Voltaire, ó rachador de velhos preconceitos,
Aos golpes de teu riso, a golpes de machado
Cairam sobre a terra athleticos, desfeitos
Na floresta da noite os cedros do passado.
Mataste a tradição, o dogma, o privilegio,
Assobiaste a rir a fé de nossos paes,
E andaste pelo azul, hediondo sacrilegio!
A correr á pedrada os deuses immortaes.
Empunhando o alvião terrivel da verdade
Tu minaste, Voltaire, infatigavelmente
O alicerce de bronze à velha sociedade.
Do teu riso cruel a onda dissolvente
Foi como os vagalhões, arietes do mar,
Que cavam sob a rocha um tão profundo abismo
Que a rocha fica quasi assente sobre o ar.
Tu minaste, Voltaire, a rocha despotismo.
E depois de ter feito a excavação noturna,
Como fazem no monte as feras sanguinarias,
Encheste até á bocca essa medonha furna
Com barris de petroleo e bombas incendiarias
E em quanto o niveo pé soberbo de Antonieta
Da França estrangulava a suplicante voz,
Tu lançavas de longe a tragica luneta,
Velho Fauno cruel, rindo com riso atroz.
Até que um dia emfim exausto de cansaço,
Sentindo jà sem força as garras de condor,
Tu chegaste, Arouet, sem te tremer o braço,
Ao rastilho da mina o fogo abrasador.
Cobriu-se então o azul d'uma tormenta escura,
Echoou lugubremente o estrondo de trovão,
Viste arder o rastilho até uma certa altura,
E foste-te esconder, a rir, na sepultura
Mal se ia aproximando a hora da explosão.
Quando resuscitou Voltaire ficou atonito
Vendo os nossos chapeus e as nossas calças pretas,
Mas como desejava andar no mundo incognito,
E não lêr o seu nome impresso nas gazetas,
Oh, a necessidade a quanto nos obriga!
Voltaire o diplomata, o cortezão taful
Largou a juba d'oiro, a cabelleira antiga
E foi vestir-se á moda aos armasens do Pool.
Na sexta feira santa os templos percorria
Voltaire para observar os crentes verdadeiros
No dia da paixão, no luctuoso dia
Em que se faz de Christo o deus dos confeiteiros.
Arouet, ao vêr aquella estupida farçada,
Foi acordar Jesus na sua campa ignorada
E disse-lhe:

II