Era uma vez uma família de gigantes, que viviam num castelo na montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis anos, da altura dum álamo. Era curiosa e andava com vontade de descer à planície a ver o que faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões. Um belo dia, em que seu pai o gigante tinha ido à caça e sua mãe estava dormindo, a jovem giganta desatou a correr para um campo, onde os jornaleiros trabalhavam. Parou surpreendida a ver a charrua e os lavradores, coisas inteiramente novas para ela. «Oh! que lindos brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que quase que cobriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavalos, a charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castelo, onde seu pai estava a jantar.
—Que trazes aí, minha filha?» perguntou ele.
—Olhe, disse ela, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os mais bonitos que tenho visto.»
E pô-los em cima da mesa, a um e um,—os cavalos, a charrua e os trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem tivessem transportado dum formigueiro para um salão. A gigantinha pôs-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante fez-se sério e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe ele. Isso não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e respeitar-se. Mete tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-no imediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da montanha, morreriam de fome, se os anões da planície deixassem de lavrar a terra e de semear o trigo.
A criança, a anjo e flor
Quando morre uma criança, desce um anjo do céu, toma-a nos braços, e desdobrando as asas imaculadas, voa por cima de todos os sítios que ela amara durante a sua pequenina existência; o anjo abaixa-se de quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam no paraíso ainda mais belas do que tinham sido na terra. Deus recebe todas as flores, escolhe uma delas, toca-a com os lábios, e a flor escolhida, adquirindo voz imediatamente, começa a cantar os coros maviosos dos bem-aventurados. Ora escutai o que disse o anjo a uma criança morta, que o estava ouvindo como num sonho. Pairaram primeiro sobre a casa em que a criança brincara, e depois sobre jardins deliciosos, cobertos de flores.
«Qual é a flor que desejas para plantar no paraíso?» perguntou o anjo.
Havia nesse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa, magnífica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de botõezinhos lindíssimos pendiam estiolados para o chão.
«Pobre roseira! disse a criança ao anjo; vamos buscá-la para que possa reflorir no paraíso.»
O anjo foi buscá-la, e abraçou a criança. Colheram muitas flores brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.
A colheita estava terminada, e contudo não voavam ainda para Deus. Caiu a noite silenciosa, e a criança e o seu guia Divino andavam ainda por cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de imundície. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raízes duma flor dos campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-na atirado para a rua como inútil e morta.
«Vale a pena levantá-la disse o anjo; levemo-la, e pelo caminho, voando, te contarei a história da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquela rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma criança miserável e doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passear com a ajuda das muletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias de Verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora. Então a criança sentada à janela, aquecida pelo sol, sem o cansaço do andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do vizinho tinha colhido para ele. Suspendia por cima da cabeça o ramo verdejante, e, supondo-se debaixo das árvores abrigadas do sol, sonhava com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do vizinho trouxe-lhe flores do campo, e por acaso entre elas apareceu uma que tinha ainda raízes; o pequerrucho plantou-a num vaso, e pô-lo à janela, junto da cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e todos os anos dava novas flores. Era o seu jardinzinho, o seu único tesouro neste mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe aproveitar os raios do sol até ao último. A flor aparecia-lhe em sonhos, porque era para ele que floria, que espalhava o seu aroma e ostentava as suas cores; quando se sentiu morrer foi para ela que se voltou.
«Faz hoje um ano que esse pequerrucho habita no paraíso; a sua querida flor, esquecida à janela desde então, murchou, estiolou-se e atiraram-na à rua finalmente. E contudo esta flor quase seca é o tesouro do nosso ramalhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os canteiros dum jardim realengo.»
«Como sabes tu isso?» perguntou a criança, que o anjo levava para o céu.
—Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava em muletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»
A criança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam no céu onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores, levou-as ao coração, mas a que ele beijou foi a florinha silvestre, desprezada e murcha: a flor adquiriu voz imediatamente, pôs-se a cantar com as almas que rodeiam o Criador, umas junto dele, outras ao longe, formando círculos que vão aumentando sucessivamente, multiplicando-se até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos harmoniosamente—desde a criança abençoada até à humilde florinha do campo, levantada do lodo, dentre os tristes despojos da rua sombria e tortuosa.
Presente por presente
Um grande fidalgo, que se tinha perdido numa floresta, foi dar de noite à choupana de um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que pôde, desculpando-se da miserável hospitalidade que lhe ia dar, porque eram batatas cozidas a única coisa que lhe poderia oferecer; cama não a tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões, e dormiu melhor em cima da palha do que num leito de príncipes. Ao outro dia pela manhã disse isto mesmo à pobre mulher, gratificando-a ao despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponesa julgou que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro examinou os cunhos e o valor da moeda de ouro, e disse para a mulher:
«Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso príncipe!
E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter achado as suas batatas melhores do que faisões.
«É necessário confessar, disse ele com um ar triunfante, que não há talvez no mundo um terreno mais favorável do que este para a cultura das batatas; hei-de lhe levar um cesto delas, já que as acha tão boas.
E partiu imediatamente para o palácio com uma provisão de batatas escolhidas.
Os lacaios e as sentinelas ao princípio não o queriam deixar entrar; mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo contrário vinha trazer alguma coisa.
Foi, pois, introduzido na sala da audiência.
«Meu senhor, disse ele ao príncipe: Vossa alteza dignou-se recentemente pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca duma enxerga miserável e de um prato de batatas cosidas. Era pagar demasiadamente, apesar de serdes um príncipe muito rico e poderoso. Eis o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignai-vos aceitá-las, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá as encontrareis sempre ao vosso dispor.»
A honrada simplicidade do camponês agradou ao príncipe, e, como estava num momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta jeiras de terra.
Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que, sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse consigo: «Porque não me há de suceder a mim outro tanto? O príncipe gosta do meu cavalo, pelo qual lhe pedi sessenta libras, que ele me recusou. Vou-lhe fazer presente dele: se deu ao João uma quinta com trinta jeiras de terra, simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me há de recompensar ainda mais generosamente.»
Tirou o cavalo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do palácio; recomendou ao criado que o segurasse, e, atravessando com ar altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiência.
«Ouvi dizer, disse ele, que vossa alteza gosta do meu cavalo; não tenho querido trocá-lo a dinheiro, mas dignai-vos permitir-me que vo-lo ofereça.»
O príncipe viu imediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse consigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:
Depois dirigindo-se a ele:
«Aceito a tua dádiva, mas não sei como agradecer-ta condignamente. Oh! espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que faisões. Custaram-me trinta jeiras de terra. Parece-me que é um bom preço para um cavalo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»
E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.
O pinheiro ambicioso
Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh! dizia ele, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais orgulhoso que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»
O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam a sua rápida fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num saco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça.
«Oh! disse ele, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça dos homens. Fiquei completamente despido. Não há agora em toda a floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro; o oiro atrai as ambições.
Ah! se eu arranjasse um vestuário de vidro! Era deslumbrante, e o judeu avarento não me teria despido.»
No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas nisto o céu cobriu-se de nuvens, e o vento rugindo, estalando, quebrou com a sua asa negra as folhas de cristal.
«Enganei-me ainda, disse o jovem pinheiro, vendo por terra todo feito em pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir as florestas. Se eu tivesse a folhagem acetinada das aveleiras, seria menos brilhante, mas viveria descansado.»
Cumpriu-se o seu último desejo, e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem deixar uma única.
O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da sua sorte.
Perfeição das obras de Deus
A filha.—Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.
A mãe.—Vou-te dar outra.
A filha.—Como se fazem as agulhas, mamã?
A mãe.—Vê se adivinhas.
A filha.—Não sei, mamã.
A mãe.—Conheces os metais?
A filha.—Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de uma caixa.
A mãe.—Ora muito bem, diz-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de mármore?
A filha.—Oh! não; são de metal; mas de que metal?
A mãe.—Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas primeiro.
A filha.—Ora espere!... uma agulha é de metal: não é de prata, porque não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarelo muito brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarelo muito feio, que cheira mal... Então é de ferro, mamã?
A mãe.—Adivinhaste.
A filha.—Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.
A mãe.—É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já se não chama ferro, é aço.
A filha.—Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que as fazem.
A mãe.—É impossível, não és capaz disso; mas hei de levar-te a uma fábrica onde se fazem agulhas. Hás-de vê-las fazer, e hás-de gostar muito.
A filha.—Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que nos servimos.
A mãe.—Tens razão; é uma vergonha ignorá-lo.
A filha.—Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.
A mãe.—Olha, aí tens o meu estojo.
A filha.—Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão fininhas, tão fininhas!... Muita habilidade há-de ser necessária para fazer uma coisinha tão delicada!
A mãe.—Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?
A filha.—Lembro, mamã; era tão bonito!
A mãe.—Li num jornal alemão que um operário chamado Nerlinger fez um copo de um grão de pimenta, e que dentro deste copo havia mais doze...
A filha.—Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem num grão de pimenta!
A mãe.—E ainda não é tudo; cada um desses copinhos tinha as bordas doiradas, e sustentava-se no pé.
A filha.—Que vontade eu tinha de ver isso!
A mãe.—Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É efectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam certas coisas; contudo ainda há outras obras mais dignas de admiração.
A filha.—Quais, mamã?
A mãe.—Já to digo. (Levanta-se.)
A filha.—Que quer, mamã?
A mãe.—Quero que vejas o microscópio de teu papá.
A filha.—Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscópio.
A mãe.—Este é magnífico, e aumenta prodigiosamente os objectos. Vais ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina, lisa e brilhante... Agora olha; o que é que vês?
A filha.—Meu Deus, que coisa tão feia! Que agulha tão grosseira!
A mãe.—Vês-lhe buracos, riscos, asperezas, não é verdade?
A filha.—Parece um prego muito grande e muito mal feito.
A mãe.—Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por elas.
A filha.—O operário que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a visse ao microscópio.
A mãe.—Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.
A filha.—O quê, mamã?
A mãe.—O aguilhãozinho de uma abelha.
A filha.—Oh! que pequenino, que bonito!... Como é liso, como é brilhante!... Mas já sei que visto ao microscópio há de acontecer o mesmo que com a agulha.
A mãe.—Pronto: olha.
A filha (olhando).—É esquisito, mamã!
A mãe.—Então?
A filha.—Aumentou, aumentou como a agulha, mas não é áspero, pelo contrario, é perfeitamente liso... A agulha parecia que não tinha ponta, e o ferrãozinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabelo. Porque será isto, mamã?
A mãe.—É porque o operário que fez este aguilhão é muito mais hábil do que o que fez a agulha.
A filha.—Quem é esse operário tão hábil?
A mãe.—É o mesmo que fez o céu, os astros, a terra, as plantas e as criaturas.
A filha.—É Deus.
A mãe.—Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os animais?
A filha.—De certo.
A mãe.—Foi ele por conseguinte que fez o aguilhão desta abelha; e aí tens porque o aguilhão é superior à agulha: é obra de Deus. Mas continuemos a olhar pelo microscópio. Aqui está um pedacinho de musselina finíssima. Olha pelo microscópio; o que é que vês?
A filha.—Vejo uma rede grossa, desigual, muito mal feita.
A mãe.—Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadíssima.
A filha.—Essa estou bem certa que há de ser linda, mesmo vista pelo microscópio.
A mãe.—Então?
A filha.—É horrorosa... Parece feita de pelos grosseiros com grandes buracos desiguais.
A mãe.—As obras do homem são todas assim.
A filha.—Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.
A mãe.—Sabes o que é isto?
A filha.—Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.
A mãe.—Os fiozinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha pelo microscópio a ver se te parecem desiguais.
A filha (olhando pelo microscópio).—Não, mamã; os fios são todos iguais, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.
A mãe.—É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que há sobre este papel?
A filha.—Pontinhos feitos com tinta e manchazinhas redondas feitas também com tinta.
A mãe.—Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente redondos?
A filha.—Sim, mamã, perfeitamente redondos.
A mãe.—Vê-os agora ao microscópio.
A filha.—Oh! já não são redondos, são todos desiguais.
A mãe.—Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma asa de borboleta; vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo microscópio; o que é que vês?
A filha.—Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a diferença que agora é maior. Que belas que são as obras de Deus!
A mãe.—Merece bem a pena estudá-las.
A filha.—De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras dos homens.
A mãe.—E sempre e em tudo hás-de encontrar defeitos nas obras do homem, enquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem fazer nada perfeitamente belo, perfeitamente regular, e as suas obras mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as obras do Criador.