Há entre vós, meus filhos, índoles violentas, que não sabem dominar-se, e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma péssima disposição, que é necessário corrigir; dá lugar a disputas, e a que se cometam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde. Citar-vos-ei dois exemplos de que fui testemunha.
Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante dele, volta-se e dá-lhe uma bofetada.
—Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vai ter! Bateu num cego!»
Um homem ainda novo montado num burro, atravessava uma aldeia, e uns camponeses grosseiros começaram a apupá-lo e a bater no burro, para o fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a eles, e, mostrando-lhes a sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubésseis que eu era coxo, não teríeis sido tão covardes.»
Os camponeses, envergonhados, coraram, afastando-se sem pronunciar uma palavra.
Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a quem as recebeu.
O malmequer
Ouvi com atenção esta pequenina história!
No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.
Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda-feira, sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha feliz que cantava e voava.
«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho razão de me queixar.»
Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: «Como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo espectáculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu voo, não para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que havia de pensar.
O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, cantando: «Como a erva é macia! oh! que encantadora florinha, com um coração de oiro, vestida de prata!»
Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.
Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.
«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se todas.»
E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.
No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razões para se afligir: haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do espaço ilimitado.
O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente das suas próprias folhas.
Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia compreender o que desejavam.
«Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.
—«Arranca a flor, disse o outro.»
A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.
«Não; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.»
Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.
O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as asas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.
Passou-se assim toda a manhã.
«Já não tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao menos uma gota de água. A garganta queima-me, tenho uma febre terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificências da criação!»
Depois enterrou o bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe, afagando-o: «Também tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva, e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorífera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!
—Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o mínimo movimento.
Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.
Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma gota de água à desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas asas, sacudindo-as convulsivamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e de angústias cessou de bater. Vendo este triste espectáculo, o malmequer não pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.
Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver dentro de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de príncipe, e cobriram o túmulo com folhas de rosas.
Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.
A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se lembrou.
Não quero
Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que falavam muito alto: «Não, dizia um com voz enérgica, não quero.» Parei e perguntei-lhe:—O que é que tu não queres, meu rapaz?—«Não quero dizer à mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me há-de ralhar, mas antes quero que me ralhe do que mentir.»—E tens razão, disse-lhe eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, enquanto que o outro pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora todo envergonhado.
Daí a alguns meses, passando pela mesma aldeia e tendo de falar com o professor, entrei na escola, onde reconheci imediatamente os meus dois pequenos; o que não quis mentir, sorria-me, enquanto que o outro, vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os dois alunos: Oh! disse-me ele, falando do primeiro, é um magnífico estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre pronto a confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a repará-las. O outro pelo contrário, é mentiroso, covarde e incorrigível.»—Não me espanto, disse eu, já tinha tirado o horóscopo destas duas crianças; e contei-lhe o que tinha ouvido.
Piloto
Piloto era o mais inteligente e o mais afectuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.
Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.
Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.
Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.
Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.
Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade em quanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.
Era como se dissesse: «Onde vais tu com o trigo de meu dono?»
O ladrão quis pôr então outra vez o saco donde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.
Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.
Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.
Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.
Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.
Teve vergonha de seu acto miserável; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.
O exemplo do cão corrigiu o homem.
O rico e o pobre
Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um dia, voltando de uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e deitou-se debaixo de uma árvore, à porta de uma estalagem, junto da estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar, quando chegou uma bela carruagem em que vinha um fidalguinho, com o seu preceptor. O estalajadeiro correu imediatamente e perguntou aos viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo, e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de vinho.
Martinho estava pasmado a olhar para eles; olhou depois para a sua côdea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapéu todo roto, e suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquele menino tão rico, em vez do desgraçado Martinho! Que fortuna se ele estivesse aqui, e eu dentro daquela carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia Martinho e repetiu-o ao seu aluno, que, lançando a cabeça fora da carruagem, chamou Martinho com a mão.
—Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a minha sorte pela tua?»—Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho corando, o que eu disse não foi por mal.»—Não estou zangado contigo, replicou o fidalguinho, pelo contrário, desejo fazer a troca.»
—Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguém quereria estar no meu lugar, quanto mais um belo e rico menino como o senhor. Ando muitas léguas por dia, como pão seco e batatas, enquanto que o senhor anda numa carruagem, pode comer frangos e beber vinho.»—Pois bem, volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquilo que tens e que eu não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o preceptor continuou: «Aceitas a troca?»—Ora essa! exclamou Martinho, ainda mo pergunta! Oh! como toda a gente da aldeia vai ficar assombrada de me ver entrar nesta bela carruagem!» E Martinho desatou a rir com a ideia da entrada triunfante na sua aldeia.
O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a descer. Mas qual foi a surpresa de Martinho, vendo que ele tinha uma perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em duas muletas: depois, olhando para ele de mais perto, Martinho observou que era muito pálido e que tinha cara de doente.
Sorriu para o rapazito com ar benévolo, e disse-lhe:—Então sempre desejas trocar? Querias porventura, se pudesses, deixar as tuas pernas valentes e as tuas faces coradas, pelo prazer de ter uma carruagem e andar bem vestido?»—Oh! não, por coisa nenhuma! replicou Martinho.—«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se tivesse saúde. Mas, como Deus quis que fosse aleijado e doente, sofro os meus males com paciência e faço por ser alegre, dando graças a Deus pelos bens que me concedeu na sua infinita misericórdia.
«Faz o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal, tens força e saúde, coisas que valem mais que uma carruagem, e que não podem comprar-se com dinheiro.