«Tal e qual… tal e qual!…
Guisados com arroz são excellentes.»

* * * * *

Nasceu a lua. As folhas dos arbustos
Tinham o brilho meigo, avelludado
Do sorriso dos martyres, dos justos.
Um effluvio dormente e perfumado
Embebedava as seivas luxuriantes.
Todas as forças vivas da materia
Murmuravam dialogos gigantes
Pela amplidão etherea.
São precisos silencios virginaes,
Disposições sympathicas, nervosas,
Para ouvir estas fallas silenciosas
Dos mudos vegetaes.
As orvalhadas, frescas espessuras
Presentiam-se quasi a germinar.
Desmaiavam-se as candidas verduras
Nos magnetismos brancos do luar.

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* * * * *

E n'isto o melro foi direito ao ninho.
Para o agasalhar andou buscando
Umas pennugens doces como arminho,
Um feltrosito assetinado e brando.
Chegou lá, e viu tudo.
Partiu como uma frecha; e louco e mudo
Correu por todo o matagal; em vão!
Mas eis que solta de repente um grito
Indo encontrar os filhos na prisão.

«Quem vos metteu aqui?!» O mais velhito
Todo tremente, murmurou então:

«Foi aquelle homem negro.—Quando veio
Chamei, chamei… Andavas tu na horta…
Ai que susto, que susto! Elle é tão feio!…
Tive-lhe tanto medo!… Abre esta porta,
E esconde-nos debaixo da tua aza!
Olha, já vão florindo as assucenas;
Vamos a construir a nossa casa
N'um bonito logar…
Ai! quem me dera, minha mãe, ter pennas
Para vôar, vôar!»

E o melro hallucinado
Clamou:

«Senhor! Senhor!
É por ventura crime ou é peccado
Que eu tenha muito amor
A estes innocentes?!
Ó natureza, ó Deos, como consentes
Que me roubem assim os meus filhinhos,
Os filhos que eu criei!
Quanta dor, quanto amor, quantos carinhos,
Quanta noite perdida
Nem eu sei…
E tudo, tudo em vão!
Filhos da minha vida!
Filhos do coração!!…
Não bastaria a natureza inteira,
Não bastaria o ceo para voardes,
E prendem-vos assim d'esta maneira!…
Covardes!
A luz, a luz, o movimento insano
Eis o aguilhão, a fé que nos abraza…
Encarcerar a aza
É encarcerar o pensamento humano.
A culpa tive-a eu! quasi á noitinha
Parti, deixei-os sós…
A culpa tive-a eu, a culpa é minha,
De mais ninguem!… Que atroz!
E eu devia sabel-o!
Eu tinha obrigação de adevinhar…
Remorso eterno! eterno pesadello!…