E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
Deu já cachos brancos como o branco arminho,
Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
Já sobre elle amando palpitaram azas!…
Fuso como giras em dedinhos breves
Prasenteiramente, com tão louco ardor!
Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
Se serão camisas, ou mortalhas leves,
Cama para bodas, ou lençoes de dor!…
No vetusto escano o lavrador sombrio
Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
Como é que hade o gado pelo ardor do estio
Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…
Choram ventanias!… panica tristeza!…
Sentem-se na loja bois a ruminar…
Queixas insondaveis vem da naturesa!…
Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
Contemplando a Noite sem poder fallar!…
Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
Almas misteriosas, em que sonharão?…
Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…
Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
Reviver na vida eterna do universo,
Circulo de enigmas, que ninguem traduz…
Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!
Mas a alma, as almas quem as ha criado?
Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
Lançam as estrellas á miseria humana!…
Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
São tambem fogueiras sobrenaturaes,
Que na pavorosa noite do Infinito
Crepitando espalham seu clarão bemdito,
Suas alvoradas roseas, virginaes,
Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
A tremer com frio, a soluçar com dor,
Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
Atravez d'eternos turbilhões profundos,
N'um virtiginoso, angustioso horror!…