E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…
E o mundo e os mundos a girar na altura
Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
Blocos de materia fria, sem verdura,
Errarão na vaga imensidade escura,
Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…
Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
Circular na eterna vida universal:
Nebulosa fluida, lavareda ardente,
Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…
Formas da materia, que eu em vão desnudo,
Que invisiveis forças, e almas encobris?
Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
Mas o enigma impresso no seu labio mudo
Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…
Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
Que penetra as coisas com o seu olhar!
Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
A rasão é um verme, mas a crença é aza…
Verme! aos infinitos poderás chegar!…
Ó velhinha santa, minha boa amiga,
Resa o teu rosario, move os labios teus!…
A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
Não importa! resa, minha boa amiga,
Que orações são lingoas de falar com Deos!…
Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
Que andam por agrestes, solitarios montes,
Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…
Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
Com os seus farrapos mais o seu bordão,
Marcham por milagre na continua treva…
Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
Que prodigio oculto? que invisivel mão?
Pois, velhinha branca, tua crença pura,
Tua resa antiga, que me faz chorar,
É egual aos cegos, que na noite escura
Não precisam d'astros para ver a altura,
Não precisam d'olhos para ter olhar!
No Infinito mudo tua ingenua crença,
Tremula ceguinha de risonho alvor,
Eil-a andando, andando, como que suspensa,
Pelos descampados d'uma noite imensa,
Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…