IV
*AS ERMIDAS*
AS ERMIDAS
Alvas ermidinhas sob azues maguados,
Vejo-vos de longe n'uma adoração,
Como ninhos brancos de Ideal pousados
Lá n'esses fragosos montes escalvados,
Onde não ha agoa, nem germina o pão.
Serranias ermas, solidões contritas…
Azinheiras como velhos Briarcus….
Pedras calcinadas… gados parasitas…
Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
Que em burel d'estevas amortalha Deos!…
Pelas torvas, fundas noites de invernada,
Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
Que infinitos sustos n'uma tal morada,
Para debil virgem tão desamparada
Com um inocente nos seus braços… ai!
Como é que não treme pelo seu menino?
Como é que não chora seu piedoso olhar?
Como é que o seu labio, fresco e matutino,
Se abre n'um sorriso, precursor divino
Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!
Não receia feras quem de rosto ledo
Sofre sete espadas sobre o coração!…
E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…
Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
Sem o bafo impuro que dos homens vem,
É que a mãe de Christo com as andorinhas,
E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
N'um casebre terreo se acomoda bem.
Bispos não precisa; servem-na pastores,
Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
N'uma egrejasinha que é como um pombal.