E nas brutas, rudes solidões tão calmas
Ai, muito se engana quem a julga só!
Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
Para lá caminham romarias d'almas…
Todos nós lá fomos com a nossa avó!…
Oh, as invisiveis procissões piedosas,
Romarias fluidas, sobrenaturaes!
Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
Fica nos espaços um alvor de rosas
E uma angelisante tremulina d'ais!…
Almas de velhinhas, do palor silente
D'uma estrella, quando desmaiando está…
Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
Vão rogar a Gloria para os mortos já…
Almas de meninos, loiras como abelhas,
A sorrir ao colo d'almas a cantar…
Almas em noivados, roseas e vermelhas…
E almas de pastores ofertando ovelhas,
Chocalhinhos d'astros, velos de luar…
Almas d'assassinos dos montados ermos,
Com o seu remorso como um javali…
Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
Almas vagabundas, de perdidos termos,
Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…
Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
Das aradas verdes, da campina em flor…
Almas de borregos, touros, passarinhos…
E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…
E essas almas todas ella apasigua
Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
Verte sobre as penas sugestões de lua,
Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…
Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
E dos sonhos loucos o torpor febril…
Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
Faz fugir os lobos vendo o seu candil.
Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
Que á romagem d'oiro não acodem já!
Almas moribundas… Noites de procellas…
Olha nos casebres tremeluzem velas!…
É signal que a Morte anda a rondar por lá!…
Mas a sempre linda Virgem da Amargura
Baixa do altarzinho toda afadigada,
E atravez de serras, pela noite escura,
De menino ao colo,—santa creatura!—
Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…