Lá vae ella andando… no caminho estreito
Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
Põem-lhe um setestrello sobre o coração…
E de povo em povo, que é de serra em serra,
Almas na agonia visitando vae;
Quando chega, a Morte já as não aterra,
Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…
Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
Quantas noites, quantas! tremula de dor,
Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
A parir, balando como uma creança,
Entre fragaredos de meter horror!
A deshoras mortas eil-a vigilante,
Prompta a dar socorros ao menor queixume:
Acender estrellas para o navegante,
Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
Defender das cobras a ninhada implume…
Pois como não ha-de consolar as dores
Dos humildes, simples, engeitados, nus,
Se inda se recorda de só ver pastores,
Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
Na sagrada noite em que pariu Jesus!…
Sim! adora a rude gente da lavoira,
Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
Porque não se esquece da vaquinha loira,
Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
Quando nas palhinhas dormitava Deos…
E por isso arreda pestes, ventanias,
Fomes e procellas, bruxas e trovão,
Lá para malditas, negras penedias,
Onde silvam cobras doudas e bravias,
E onde não existe nem christão, nem pão!…
E por isso ex-votos, que relembram dores,
Cobrem de ternura todo o seu altar:
Bustos de meninos, mãos de cavadores,
Tranças de donzellas, soluçando amores…
Corações e peitos, de fazer chorar!…
Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
Sois n'essas alturas para os olhos meus,
Como ninhos virgens d'orações piedosas,
Miradoiros brancos de luar e rosas,
D'onde as almas simples entreveem Deos!…
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