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Escrevi há ano e meio as páginas que aí ficam. Tencionava completá-las, documentando-as. Inútil. O inquérito definitivo à montureira circundante é a ferro e fogo, não a pena e a tinta, que deve executar-se.
Ampliarei ainda estas anotações com o protesto que foi dado a lume, quando o govêrno tolheu a homenagem a Guilherme Braga. É um rápido exame dos planos últimos da monarquia. Por isso o transcrevo. Ei-lo:
O govêrno proìbiu a manifestação anti-jesuítica, que hoje deveria realizar-se no cemitério de Agramonte em volta da campa do grande poeta Guilherme Braga.
Os jesuítas são o auxiliar da monarquia. Atacando-os, atacamos o Rei. O ministério não o permite. Não há que estranhar. É lógico.
Desde a crise do ultimatum inglês, que tanto podia significar uma onda de vida nova como o estertor dum moribundo, resvala a nação, dia a dia, ao letargo estúpido da indiferença. Estará morta? Estará cataléptica? O futuro, breve talvez, o vai dizer.
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geográficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Como resistir? pela fôrça física? impossível. Não há balas nem libras, não há ouro nem ferro. Qual o meio então? Um único: a fôrça moral. Não vale tudo, mas vale alguma coisa. Na balança da realidade efémera, os canhões pesam como bronze, e o Direito e a Justiça pesam como ar. Sim; às vezes, não sempre.
Houve profetas que domaram leões: mártires que aterraram algozes. E quando um homem ou um povo sucumbem altivos em nome da verdade, êsse homem ressuscitará nas consciências, e êsse povo ressuscitará na História. O justo, expirando na Cruz, ao terceiro dia levanta-se do túmulo. O covarde, mergulhando em lôdo, em lôdo agoniza e em lôdo se transforma.
Qual era, pois, a grande missão de um govêrno em Portugal? Fazer de quatro milhões de espíritos um só espírito, juntar quatro milhões de vontades numa só vontade. Raios de luz divergentes, aquecem; convergentes abrasam. Um cento de meias abnegações individuais perdem-se, quási estéreis, na indiferença colectiva. Não mudam aos olhos da Europa a fisionomia portuguesa. Mas a abnegação e o sacrifício de todos, a comunhão unânime e grandiosa num ideal de Justiça, num ideal de Pátria, transfigurar-nos-ia por encanto, de povo de chatins em povo de heróis, de mortos com direito ao cemitério, em gente viva com direito ao pão, com direito à luz.