E o problema religioso, nada mais singelo: na esfera do pensamento, liberdade absoluta; na esfera dos actos, tolerância recíproca.

O povo dos campos mantêm a sua fé tradicional. Quando se dirige a Deus precisa ainda uma língua: o Padre. Faltando-lhe a hóstia, falta-lhe Cristo. Levando-lhe a igreja, levam-lhe o Céu.

O Catolicismo é roble caduco, mas nos galhos exangues, de verdura pálida, inúmeras aves inocentes gorgeiam ainda, fabricam o ninho em que adormecem. Não lancemos o machado ao tronco do roble, sem dar aos corações ingénuos, que o povoam, outra verdura calma onde se abriguem. O mundo róla no infinito; no infinito deve igualmente girar o espírito do homem. Ai dos que vivem só na terra, olhando o horizonte com o olhar da carne! Êsses não vivem. Andam kilómetros e contam horas, mas o Espaço é a jornada da alma e o Tempo a hora eterna que não finda. O homem sem o ideal sôbre-humano, regressa à bestialidade donde veio.

Se o cavador miserável não comunga em Cristo senão pela hóstia, que a hóstia lhe seja oferecida, mas cândida e branca, em mãos de misericórdia e de pureza. Organizem um clero nacional e cristão, evangelista pela virtude, embora católico pelo dogma. Varram da Igreja a estrumeira política; para bispos escolham santos, e a questão religiosa desaparece num momento. Spinosa ou Schopenhauer entender-se-iam muito bem com S. Francisco de Assis.

Porêm, os homens que há muito dirigem os destinos da Nação, últimas varreduras do constitucionalismo agonizante, quási sempre democratas vazios aos vinte anos, e cínicos redondos aos quarenta, são incapazes de um plano de govêrno, gerado numa filosofia superior, amoldado a uma razão prática luminosa e traduzido em factos, por uma vontade inabalável e contínua. Que êles, francamente, visam apenas salvar o seu interesse, o seu egoismo e as suas lantejoulas de medíocres.

Conservam a realeza no intuito de se conservarem a si próprios. Mas uma realeza moribunda só entre mortos alcançará reinar. Fazer do País um cemitério de almas, eis o problema. As associações protestam? Dissolvidas. Os clubes ameaçam? Trancados. As Côrtes incomodam, às vezes? Suprimem-se. Os jornais irritam? Cadeia. Todo o obstáculo, desfazê-lo: se é venalidade, pela compra; se é moralidade, pela tirania. Há consciências que se indignam? Prendam-nas. Há gente que se revolte? Fuzilem-a. Ordem! muita ordem! Quer dizer: Silêncio! Digerir e calar. O País inteiro uma campina raza, e nela manobrando, ovante e livre, o general Queirós. Olhai: galopa de Norte a Sul e nem um montículo para surpresas, uma ravina para emboscadas. Planura perfeita: bem chã, bem unida e bem morta. Vivos, a municipal e a polícia.

Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o mêdo. Anda guardado.

Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Pôrto, onde a polícia usa revólvers e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.

Receio do exército? Lisongeá-lo… e diminuí-lo. O exército é a municipal.

Óptimo. Só fica uma nuvem negra: os campos, a plebe da enxada. Horda infinita. Na alucinação da miséria, quem a há-de conter? O Queirós? O Graça? Não chegam. Só um Queirós em cada aldeola, um Graça em cada freguesia. O perigo, enorme, vem daí. Meio milhão de esfarrapados com êste general—a Fome, tornam-se invencíveis. Existe apenas um recurso: Deus. Muito bem. Trate-se com Deus.