Il y avec le ciel des accommodements. Há efectivamente. Mas conforme o céo, e conforme o Deus. O Deus dos Evangelhos, por exemplo, é um Deus esquisito, não presta. Leva à submissão, nunca à ignomínia. Capaz de gerar um mártir, nunca um hipócrita. Depois, a sua doutrina igualitária, em certos temperamentos, cria alucinados, produz rebeldes. O Niilismo é filho bastardo de Jesus. E êle, o próprio Deus, numa crise de cólera, não desatou às chicotadas? Com o Deus do Calvário, abrigo de humildes, redentor de plebes, um homem de estado, espelho de cordura, não deve entrar em negócios. Arrisca-se.

Quer-se um Deus maleável, arguto, scéptico, inteligente: o Deus da Companhia de Jesus. Ora aí está um Deus civilizado, sem preconceitos, útil a um govêrno. Instruído e metódico, ambicioso e cauteloso. Boa educação, boas maneiras, limpeza de roupas, latim excelente.

Sabe catequizar uma duquesa ou fanatizar uma peixeira. Dispõe de infernos com lavaredas de fogo ou lavaredas de gaze, de céus confortáveis para gente rica e céus de quinto andar para a canalha. Harmoniza o lausperene com a quermesse, S. Carlos com Santo Inácio, um sermão com um baile, e o Espírito-Santo da Igreja de S. Luís com o tiro aos pombos na tapada da Ajuda.

Por isso a monarquia firmou aliança com o Jesuíta, e o Jesuíta vai esburacando o sub-solo moral da pátria portuguesa. Alastrou, minou, furou sem ninguêm ver. Debaixo da terra. Agora aparece. Caminhou na sombra, de joelhos, como um larápio. Agora mostra-se. Mostra-se e desafia. A rêde escura da sua influência abrange a área da nação. Colégios e conventos em todas as cidades, em todas as províncias. Levantou baluartes, estratégicamente, escolhendo o terreno. Julga-se inexpugnável. Manobra à luz, desfila em batalhões, forma em revistas. É a guarda municipal da consciência portuguesa. O seu Deus corresponde-se com o ministério, tem entrada na côrte e verba no orçamento.

Perguntarão: Se o govêrno dispunha do clero, por que chamou o jesuíta? Se havia de casa o abade, por que recorreu ao missionário? É que o abbade, desmoralizado pelo constitucionalismo em sessenta anos de tranquibérnia eleitoral, perdeu, lentamente, aos olhos do camponês, o carácter augusto de intermediário de Jesus. O missionário, ainda não.

E eis aí porque o govêrno pactuou com o jesuíta, e nos inibe de responder, como desejávamos, àquela entrudada grotesca de Santo António, que durante semanas emporcalhou as ruas de Lisboa. Carnaval sacrílego! A humildade, a virtude e a pureza do sublime franciscano, enxovalhadas e calcadas em correrias de titeriteiros e de bêbedos! O discípulo cândido da mais angélica alma que ventre materno deu à luz, exposto a glorificações mercenárias, a apoteoses aviltantes! Para celebrar a dôr, foguetórios e músicas! Para celebrar a mansidão, toiradas e baionetas! Para celebrar a renúncia, jogos e toiros, galopes e clarins! Um banquete suntuoso, uma raínha constelada de jóias, convivas em fardalhões auriluzentes, damas cobertas de brocado, na mesa opulenta uma hecatombe luculiana, e um burguês anafado e ventrudo, ao dessert, copo de champagne na mão, erguendo um brinde (com arrotos), à doçura, à singeleza evangélica do amigo do Poveréllo, de Santo António de Lisboa! E não fulminou Deus o animalejo estercorário!

E, por fim, aquela debandada de entremez eclesiástico, em que os padres de Jesus, loucos de terror, cegos de covardia, largavam da mão as coroas e as insígnias, para melhor se escapulirem, desordenados e fedorentos.

Iremos a Agramonte, iremos silenciosos, a um e um, esconder em flores o túmulo modesto dêsse belo poeta, a quem a sociedade, em troca do Génio, doou amarguras e vilipêndios. Tardia romagem da nossa indesculpável ingratidão. E, emquanto a protestos ruidosos, só um a fazer. Mas êsse deve fazê-lo a nação inteira, e sem pedir licença aos governantes. Protesto único e definitivo, donde resulte uma sociedade virtuosa e nobre, equitativa e harmónica, impregnada, nas leis e nos costumes, da moral sublime de Jesus, e refractária, portanto, à moral ambígua do Jesuíta.

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Eis aí, em síntese, a obra do rei e do govêrno. Obra de estupidez, obra efémera. Imbecis. Conhecem, da Eternidade, o minuto em que jantam, e, do Espaço, as dôze cabeças de comarca onde fazem bulha. Raciocinam com os pés, com as mãos, com os olhos, com os ouvidos, com o estômago. No crânio, farelos. Supõem-se grandes, e não existem. Mandam, decretam, dão ordens, e não existem. Só espiritualmente se existe, vivendo no infinito, e êles, espiritualmente, moram no vão duma escada.