«Não basta repelir e condenar os factos, é mister, mais que tudo, inquirir das causas que os tornam possíveis e mesmo fáceis. E a consciência nacional, interrogada, responde sem hesitar que erros de muitos anos; abusivas tolerâncias em toda a espécie de deveres sociais e públicos; quebras freqùentes de disciplina, tanto na classe militar como em toda a ordem de serviços públicos; relaxação no cumprimento das obrigações de cada um; irresponsabilidade freqùente para faltas de toda a ordem; deploráveis complacências acobertadas com o que abusivamente se chama a doçura dos nossos costumes, tais parecem as causas gerais que permitiram e facilitaram tão deploráveis acontecimentos. E a câmara municipal do Pôrto, neste momento intérprete dos sentimentos da cidade, entende que faltaria ao seu dever, se não chamasse a atenção de V. M. sôbre êstes males, que é dever de todos os cidadãos, desde a mais elevada gerarquia à mais humilde condição, combater e destruir a todo o custo, se quisermos salvar a nossa pátria do inevitável naufrágio das nações que chegam a semelhante estado.».

(Extracto da representação da Câmara do Pôrto ao Rei, em 12 de fevereiro de 91.)

Eis agora o extracto da resposta do Snr. D. Carlos:

«O sustentamento da justiça e a rigorosa aplicação das leis são o fundamento moral de toda a sociedade bem organizada; a pública administração tem de ser necessáriamente económica e modesta; a política precisa de se mostrar, agora e sempre, evidentemente elevada e respeitável nos seus intentos e nos seus caracteres dominantes. Êstes salutares princípios que a digna vereação municipal do Pôrto me relembra na sua mensagem, professo-os eu como verdades fundamentais, e tenho-os para normas inquebrantáveis da minha magistratura constitucional. Diz-me a consciência que lhes tenho sido fiel; e se ainda não pude mostrar toda a minha profunda dedicação pela nossa pátria, tem sido isso devido ao pouco tempo da minha vida de rei, desgraçadamente assombrada por acontecimentos de que me não cabe a responsabilidade, mas de que sinto, como os que muito a sentem, a triste e dolorosa significação.»

Que quer isto exprimir? Que a câmara do Pôrto, com o aplauso de D. Carlos, justificou a revolta de 31 de janeiro. Embora lhe desaprovassem a forma, justificavam-lhe a essência. Mas a braveza dum acto, quando a razão o determina, desculpa-se bem. Há um julgador que diz a um réu: «A lei condena-te, mas a verdade absolve-te.» Que faz êsse juiz, quando êle é um rei? Perdoa.

Volveram anos. Os grandes criminosos, a que se referia a mensagem do município do Pôrto, onde é que estão? Nas mais altas dignidades, rodeando o trono.

E o tenente Coelho, meu senhor? onde é que está êle? Apodrecendo em
África.

Viagem do Snr. D. Carlos ao Pôrto, depois do 31 de janeiro: Mais dum ano decorrera, antes de sua majestade se abalançar à viagem. Serenados os ânimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Coímbra, assobiam-no. Chega ao Pôrto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade seguia um chefe de esquadra, a pé, durindana ao vento. Entala-se-lhe o gládio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembaínha, veloz, a sua espada de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega com donairosa cortesia. Lá está na esquadra.

Baile do ministro inglês, em Sintra: No verão de 1892 dava o ministro inglês uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade aceitou-o. O ministro inglês, naquele instante, era a Inglaterra. O soberano de Portugal era a nação portuguesa. Pois o rosto que levára a bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!

Um rei que a fatalidade inexorável, que o destino impiedoso submetesse, algemado, a similhante vergonha, choraria de raiva lágrimas de sangue, a não guardar no íntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. João VI, num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e melancólica figura de D. Pedro V. Que trágica altivez e que dorida nobreza não exprimiria o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda aquela noite pavorosa, jogou descuidadamente o bleuff, espécie de batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte. Verifiquem, lendo o Jornal do Comércio, que relatou o baile. Acrescento mais: quem o relatou assistiu a êle.