Dissolução das côrtes. Primeiro golpe de estado: O Snr. D. Carlos, um belo dia, farto de atirar às perdizes, alveja à queima-roupa o código político da nação. Com que fim? Salvar-nos, salvar a pátria. Era a vida da pátria, que, em risco iminente, o constrangia à ditadura. Espesinhava os códigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mágoa!) o juramento do rei à existência do reino. Acto solene, acto grandioso. D'ora-avante quatro milhões de espíritos do seu espírito viveriam. Escultor dum povo, cinzelador duma raça, ia fazer história, fazer humanidade. Como Deus, trabalhava em almas. Um rei idealista, que em tal momento, no fogo divino duma obra de arte,—quadro ou estátua, música ou poema,—quisera sublimar-se, escolheria naturalmente uma obra elevada, de essência religiosa, de feitio heróico. Guilherme, o visionário, escutaria o Lohengrin. Carlos, o gordo, foi ao Brasileiro Pancrácio. Os jornais o disseram. Textual: ao Pancrácio. Perfeito, simbólico.

Regresso da expedição à Guiné: Vai um bando de homens, filhos da miséria, a terras inóspitas e distantes jogar a vida pela pátria. Chegam, cumprido o dever, exaustos e dizimados. Quem lhes sai ao encontro? O rei? O rei, àquela hora, ou andava às lebres ou palitava os dentes. Galardoou-os com meia dúzia de crachás. Eram poucos. Muito bem: que os rifassem. E rifaram-nos!

Pândega a Paris: Vinte e quatro dias no cérebro do mundo. Que trouxe de lá sua majestade? Recibos e gravatas.

Viagem à Inglaterra: Quando em 30 de Janeiro de 1891 compunha eu êste verso,—A desonra, a abjecção, o trono… e a Jarreteira—, envolvia a Jarreteira, em último logar, a máxima ignomínia. Tão grande, que parecia hiperbólica. Vaticinei, adivinhei. Ei-la, a insígnia infamante, na perna esquerda do Snr. D. Carlos. Na outra, já a raínha Vitória, no dia 11 de Janeiro, lhe havia soldado uma grilheta.

Viagem à Alemanha: Dias antes do roubo de Keonga houve baile no Paço. Na quadrilha real, em frente da Snr.^a D. Amélia, quem? O ministro alemão. Não bastava. Deveria D. Carlos envergar, de joelhos, uma libré prussiana. E foi envergá-la. Contam os jornais que lha improvisaram numa noite, em dôze horas. Escudeiro novo de senhor tão grande, queria logo vesti-la.

O entêrro de João de Deus: Reinou alguns anos o Snr. D. Carlos, sem se lembrar um minuto de que João de Deus existia. Compreende-se. Da Heresta a uma férra a distância é larga. Sobrevem,—justiça imanente!—a apoteose nacional do grande lírico. A alma da pátria, num vago desejo de renascer, contrapunha a soberania do espírito à soberania da carne; a pureza, vestida de beleza, à traficância, vestida de impudor; a idealidade mística dum génio ao crasso materialismo visceral da imunda récua dos governantes. E eis logo o Snr. D. Carlos a admirar o poeta e a visitá-lo em sua casa, deitando-lhe à garganta, a ver se o prende, uma coleira qualquer de S. Tiago. O intuito evidenciava-se: erigir a glória de João de Deus em pára-raios da monarquia. Mas a homenagem, tardiamente hipócrita, não iludiu o senso íntimo da juventude, radiosa origem espontânea daquela consagração de amor e de verdade. Na festa de D. Maria gelou-se à volta de D. Carlos um silêncio de morte. Nem um viva. Aclamava um povo o seu maior génio, a suprema flor da idealidade duma raça, e o chefe dêsse povo era afastado, como um intruso, que ninguêm convidára, que ninguêm ali conhecia.

Volvido um ano morre João de Deus. As Necessidades e o Terreiro do Paço afectam, decorativamente, pungidoras mágoas. O snr. Hintze, lúgubre e solene, banhado em pranto, de joelhos, rouqueja trémulo, fitando o cadáver, esta despedida angustiosa: Adeus, Mestre! Como se o João de Deus houvera sido alfaiate, barbeiro ou sapateiro, únicas mestranças que a estética do Snr. Hintze poderia aquilatar devidamente.

Quarenta mil homens, a pé, seguiram o féretro. Na cauda, em três côches, três paquidermes do ministério, espapaçados e sonolentos, a ruminar asneiras.

E o Snr. D. Carlos, que os meus olhos buscaram, em vão, ansiosamente, durante quatro horas, onde é que estava, onde estaria êle? Duas gazetas o disseram no mesmo dia, em telegrama indêntico, de Mafra. Ei-lo: Mafra, 15, às 8 da noite. O Snr. D. Carlos retirou hoje às 5 e meia da tarde; o resultado da caçada foi: 10 galinholas, 5 gamos e 15 coelhos. Por alma do sublime poeta do amor e das estrêlas, das florinhas e das aves, dos anjos e das crianças, rezou o Snr. D. Carlos, inconsolavelmente, uns trinta tiros de espingarda. Dez Padre-Nossos na grelha, cinco Avè-Marias de escabeche e quinze Salvè-Raínhas, à Colete Encarnado, em môlho de vilão.

A cultura intelectual de sua majestade: Transcrevo, duma publicação comemorativa do centenário Henriquino, êste famoso documento do Snr. D. Carlos. É um autógrafo. Diz assim: