O doido! o doido! o doido!… Há três noites a fio
Que êste vélho alienado, horroroso e sombrio,
À volta do palácio, ave negra d'azar,
Anda a cantar!… anda a cantar!… anda a cantar!…

Indo ao balcão:

Ei-lo!

(Ao clarão dum relâmpago, destaca-se, de súbito, fronteiro ào castelo o vulto trágico do doido. Um gigante. Rôto, cadavérico, longa barba esquálida, olhos profundos de alucinado, agitando no ar um bordão em círculos de agoiro, cabalísticos. O manto esvoaça-lhe tumultuoso, restos duma bandeira vélha ou dum sudário).

Morro de mêdo!… Há não sei que de extravagante,
De inquietador, na voz, nas feições, no semblante
Dêste doido… Será um doido porventura?…
Mal a sua voz acorda, rouca, a noite escura,
Logo os cães a ladrar, a ladrar e a gemer,
Como se entrasse a morte aqui sem eu a ver!…
Que raio de fantasma!… É coisa de bruxedo…
Não ando em mim… não ando bom, tremo de mêdo…
Esquisito!…

Sentando-se ao fogão:

Ora adeus! É do tempo… é da lua…
Nervoso… Passa… Mas, se o diabo continua
Com as trovas de agoiro, eu forneço-lhe o mote,
Mandando-o escorraçar a cacete e a chicote.

Vendo o pergaminho sôbre a mesa:

O tratado… Uma léria… Enfastia-me já…
Mais preto menos preto, a mim que se me dá?!
Por via agora duma horrenda pretalhada
Mil barafundas e alvorotos… Que massada!
Que massada!… Fazem-me doido, não resisto…

Desenrolando o pergaminho: