É assiná-lo, e pronto! acabemos com isto!
Lendo alto:
«Eu, rei de Portugal, súbdito inglês, declaro
Que à nobre imperatriz das Índias e ao preclaro
Lord Salisbury entrego os restos duma herança
Que dum povo ficou à casa de Bragança,
Dando-me, em volta, a mim e ao príncipe da Beira
A desonra, a abjecção, o trono… e a Jarreteira.»
Cáspite! um pouco forte… Ora adeus!… uma história…
Chalaças… Devo a c'roa à raínha Vitória!
O DOIDO, na escuridão:
Tive castelos, fortalezas pelo mundo…
Não tenho casa, não tenho pão!…
Tive navios… milhões de frotas… Mar profundo,
Onde é que estão?… onde é que estão?!…
Tive uma espada… Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mão!…
Quem ma levou? quem ma trocou, quando eu dormia,
Por um bordão?!…
E tive um nome… um nome grande… e clamo e clamo,
Que expiação!
A perguntar, a perguntar como me chamo!…
Como me chamo? Como me chamo?…
Ai! não me lembro!… perdi o nome na escuridão!…
O REI, desvairado, erguendo-se:
O doido!… Aquela voz de fantasma titânico
Gela-me o sangue e petrifica-me de pânico!
Porque?… Ignoro… O mesmo instinto singular,
Que faz ladrar os cães, mal o ouvem cantar…
Parece-me um algoz, um carrasco sangrento
D'alêm campa, a marchar no escuro a passo lento,
Direito a mim!… Lá vem!… lá vem vindo… não tarda!…
Quem me defende?… a minha côrte? a minha guarda?
A minha guarda!… a minha côrte!… Ah, bons amigos,
Como hei-de crer em saltimbancos e em mendigos,
Sentando-se ao fogão, junto dos cães:
Se nem mesmo nos cães tenho confiança já!…
Os três cães, agachando-se-lhe aos pés, acariciam-no e lambem-no.