OPIPARUS:
Pronto! endoideceu tambêm!
ASTROLOGUS:
A mil não chega ainda; oitocentos…
CIGANUS:
Coitado!
Endoideceu! doido varrido e confirmado!
O REI:
Gracejas?
ASTROLOGUS:
Não perdi a razão, nem gracejo…
Acaso, meu Senhor, não vedes, como eu vejo,
Neste gigante, em seu aspecto e seu fadário,
O quer que seja de extra-humano e de lendário?
Maior que nós, simples mortais, êste gigante
Foi da glória dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
Seu torrão dilatou, inóspito montado,
Numa pátria… E que pátria! a mais formosa e linda
Que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moço e trigo loiro,
Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro,
Trilos de rouxinóis, revoadas de andorinhas,
Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas,
Gados nédios, colinas brancas, olorosas,
Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas,
Selvas fundas, nevados píncaros, outeiros
D'olivais, por nogais frautas de pegureiros,
Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas,
Eiras de sonho, grutas de génios e de fadas,
Riso, abundância, amor, concórdia, juventude,
E entre a harmonia virgiliana um povo rude,
Um povo montanhês e heróico à beira-mar,
Sob a graça de Deus, a cantar e a lavrar!
Pátria feita lavrando e batalhando: Aldeias
Conchegadinhas sempre ao torreão de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
Por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas.
E a dar a fé, a dar vigor, a dar o alento,
Grimpas de catedrais, zimbórios de convento,
Campanários de igreja humilde, erguendo à luz,
Num abraço infinito, os dois braços da cruz!
E êle, o herói imortal duma empresa tamanha,
Em seu tuguriosinho alegre na montanha
Simples vivia,—paz grandiosa, augusta e mansa,
Sob o burel o arnês, junto do arado a lança.
Ao pálido esplendor do ocaso na arribana,
Di-lo-íeis, sentado à porta da choupana,
Ermitão misterioso, extático vidente,
Olhos no mar, a olhar sonambólicamente…
—«Águas sem fim! ondas sem fim!… Que mundos novos
De estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
Ilhas verdes alêm… para alêm dessa bruma,
Diademadas de aurora, embaladas de espuma!…
Oh, quem fôra, através de ventos e procelas,
Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes,
Onde sonham anões, onde vivem gigantes,
Onde há topázios e esmeraldas a granel,
Noites de Olimpo e beijos d'âmbar e de mel!»
E scismava e scismava… As nuvens eram frotas
Navegando em silêncio a paragens ignotas…
—«Ir com elas… fugir… fugir!…»—[~U]a manhã,
Louco, machado em punho, a golpes de titã
Abateu impiedoso o roble familiar,
Há mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
Um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira…
Manhã d'heróis… levantou ferro… e, visionário,
Sôbre as águas de Deus foi cumprir seu fadário.
Multidões acudindo ululavam de espanto.
Vélhos de barbas centenárias, rosto em pranto,
Braços hirtos de dor, chamavam-no… Jàmais!
Não voltaria mais!… oh, jàmais… nunca mais!…
E a barquinha, galgando a vastidão imensa,
Ia como encantada e levada suspensa
Para a quimera astral, a músicas de Orfeus…
O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus!
Anos depois volvia à mesma praia emfim
Uma galera d'oiro e ébano e marfim,
Atulhando, a estoirar, o profundo porão
Diamantes de Golconda e rubins de Ceilão.
Naiades e tritões e ninfas, ao de leve,
Moviam-na a cantar sôbre espáduas de neve.
No estandarte uma cruz esquartelando a esfera;
E Vénus, voluptuosa, à proa da galera