Com o anjo cristão, virgem risonha e nua,
A mamar alvorada em seus peitos de lua!…
O argonauta imortal, quimérico gigante,
Voltava dos confins da epopeia radiante,
Estasiados ainda os olhos vagabundos
D'astros de novos céus, floras de novos mundos!

Epopeia inaudita! Herói, êle a viveu,
Sonhador, a cantou: Éschilo e Prometeu!
Inda em hinos de bronze, em estrofes marmóreas
Vibra eterno o clangor dessas passadas glórias…
Mas a glória entontece e mata… Deslumbrado,
Trocou por armas d'oiro as armas de soldado,
Vestiu veludo e sêda e lhamas rutilantes,
Estrelou de rubins, aljófares, diamantes
Sua espada de côrte e seu gibão de gala,
E, em vez do catre duro e pão negro de rala,
As molesas do Oriente e as orgias faustosas,
Com baixelas d'Olimpo e emanações de rosas…
Perdida a antiga fé, morta a virtude antiga,
Seu ânimo d'herói, caldeado na fadiga
De mil empresas, mil combates de titãs,
Domaram-no por fim braços de cortesãs.
Com o ferro vencera o oiro; em desagravo,
O oiro, que é mau, venceu-o a êle, tornando-o escravo.
Ingrato abandonara o teto paternal,
Em cuja mesa à ceia aldeã, herói frugal,
Eram de sua estreme e rústica lavoira
O pão moreno, o vinho claro e a fruta loira.
Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos
Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos.
Em seus castelos e palácios rendilhados,
Sôbre leitos de arminho e veludo e brocados,
Entre beijos de harem e pompas de rajá,
Desfalecera o velho herói, caduco já.
Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias,
Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias…
Num ímpeto de febre, aceso, arrebatado
Na visão deslumbrante e fulva do passado,
Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica,
Olhos em brasa a arder na face cadavérica…
Aparelhou galeões, velas brancas arfantes,
Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes,
Galopando a cantar, descuidados e ledos
Lanças na mão, a pluma ao vento, aneis nos dedos,
Cada bôca uma flor, cada arma um tesoiro,
Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro,
Pedrarias astrais em setins e em veludos,
Drapejar de pendões, reverberos de escudos,
E as trombetas varando o céu leve de anil
Co'o estridente clangor do seu furor febril!
E, olhos em brasa a arder na face cadavérica,
Lá partiu, lá partiu, alma errante e quimérica,
À epopeia da glória, ao sonho aventureiro,
Ao sonho lindo… oh, sonho triste o derradeiro!…
Num mar d'areia, fogo em pó turbilhonando,
Sob o vitríolo da luz redardejando,
Entre as carnagens do combate desvairado,
Já trucidado, espostejado, aniquilado
Seu exército louco,—oh sonho louco e vão!—
O calmo herói, noite no olhar, gládio na mão,
Negro de fumo e pó, rubro de chama e sangue,
Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue,
Arrojou-se, como um destino, erecto e forte,
À sangrenta hecatombe, à paz de Deus, à morte!
E a morte não no quis: exânime e desfeito,
De lançadas crivado o arnez, crivado o peito,
Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo!
Levaram-no depois sem acôrdo e cativo.
Meio século preso e débil… De repente,
Num assomo de fúria e de cólera ardente,
Partiu grilhões, abriu o ergástulo fatal
E voltou livre, livre! ao seu torrão natal!…
Mas então, oh tristeza, oh desonra, oh desgraça!
Feras do mesmo sangue, homens da mesma raça
Envenenaram-no!…

Iago atira-se furioso ao cronista.

O REI, dando-lhe um pontapé:

Silêncio! deixa ouvir…
Tem cada uma êste cronista!…

Iago não obedece. Outro pontapé.

Deixa ouvir!
E quem foi?… e quem foi?…

Rosnam os cães, fusilando os olhos ao cronista.

ASTROLOGUS, embaraçado e perplexo:

Quem foi?… Mistério obscuro… enigma que se esconde…
Já li sôbre isso, não sei quando, nem sei onde,
Uma lenda qualquer…