Perlendas
De visionário tonto, inquiridor de lendas…
Vagueiam-lhe no caco obscuro, entre miasmas,
Lemures, avejões, duendes, monstros, fantasmas…
CIGANUS:
E no entanto calcula e discorre direito,
Se lhe cheira a questão de ganância ou proveito…
O REI:
Tantas magicações, tanto grego e latim
Turvaram-lhe a razão, deram com êle assim.
Pobre cronista! anda na lua… As trapalhadas,
As pandangas que êle arquitecta!… E bem armadas!
Bem armadas!… com certo dedo… Francamente,
Às vezes o ladrão quási embarrila a gente!
Põe-se-me a fantasiar uns casos de mistério,
Com tamanho palavriado e tanto a sério,
Que fico bêsta!… Ora o ratão! ora a inzonice!
Vejam lá, vejam lá, tudo que p'raí disse!
Os maranhões, a lenga-lenga, a choradeira
Sôbre um doido, coitado, a caír de lazeira!
Designando o doido:
Coitado! meio nu, faminto, vagabundo,
De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo,
Sem ninguêm… vê-se bem que esta doida alimária
É de família pobre, é de gente ordinária.
E eu com receios e com mêdo! Visto ao longe,
Tão alto, um vozeirão, as barbaças de monge,
Era um horror! coitado! um maluco, afinal…
Aos guardas:
Deixem-no em liberdade e não lhe façam mal.
Não o espanquem… Ninguêm lhe bata… ordens severas!
Ninguêm bate num doido; os doidos não são feras.
Tratem-no bem… com caridade… Para a ceia
Uma côdea de pão e a gamela bem cheia.
Desgraçado! E dormir… dorme perfeitamente
Na estrebaria ao pé dos cães: é limpo e é quente.
Roupa grossa… Avisai lá em baixo a canalha…
Duas mantas de lã e três feixes de palha.
Não se esqueçam! cumpram as ordens que lhes dei!
ASTROLOGUS, curvando-se humildemente: