Ó alma generosa! Oh magnánimo rei!
Que agradável não é ser o cronista obscuro
De espírito tão alto e coração tão puro!
O doido sai acompanhado dos guardas. Os cães perseguem-no, ladrando, até à porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, trovões, aguaceiros, ventanias lúgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balcão. O cronista acaricia os cães, galhofeiramente, sorrindo amável.
O CRONISTA, afagando Iago:
Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo!
Sabes quanto te quero e sei que és meu amigo…
Não te zangues… perdão… congracemo-nos, vá!
O doido foi-se embora e não torna a vir cá…
Havia de eu perder afeições como a tua,
Por causa dum maluco a divagar na lua?!…
Anda, não sejas mau… faz'as pazes comigo…
Meu protector… meu defensor… meu vélho amigo!…
Ameigando Judas:
E êste Judas!… tão bom… tão leal… tão sincero!…
Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!…
Pegando no Veneno ao colo:
E o meu Veneno! o meu bijou! a rica prenda!…
Que amor de cão!… que perfeição!… Nem de encomenda!…
É de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro…
Uma beijoca, vá, no focinhito loiro!…
Afagando os três cães simultaneamente:
E, para liquidar agravos duma vez,
Disponho-me esta noite a cear com vocês!