Gente carpinteirando em tábuas e barrotes,
Não para esquifes, meu Senhor; para caixotes!
Mandei encaixotar (a providência é boa)
Os milhões do tesoiro e as baixelas da c'roa.
E em quanto à c'roa, Senhor meu,
Ninguêm lha roubará, ninguêm!, defendo-a eu.
O trono… o que é um trono? uma simples cadeira
De veludo já gasto e de vélha madeira.
É, pois, minha profunda e sábia opinião
Deixá-lo ir sem resistência… A c'roa, não!
A c'roa é d'oiro fino, esmeraldas, diamante,
Turquezas e rubins… (uns dois milhões cantantes!)
E portanto, Senhor, havemos de levá-la,
Há-de ir connosco, ao pé de nós, dentro da mala!

CIGANUS, pensando e rindo:

C'roa de procissão… rica para um andor:
Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de côr.

OPIPARUS, continuando:

E comido o banquete e devorada a presa,
Bem nos importa a nós erguermo-nos da mesa!
Partiremos a rir, terminado o dessert,
Levando cada qual na algibeira o talher…
Com três milhões de renda, um pecúlio feliz,
Grande vida a dum rei destronado em Paris!…

O REI:

É cínico, mas tem pilhéria êste demónio!…

OPIPARUS:

Bom estômago e ventre livre: um património!
A vida é bôa ou má, faz rir ou faz chorar,
Conforme a digestão e conforme o jantar.
Pode crê-lo, Senhor, toda a filosofia,
Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria,
Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas,
De gastro-intestinais combinações obscuras.

O REI: