Não é mau;
Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha;
O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha,
Que se esfalfe a ganir… Não me incomoda nada…
O REI, voltando-se para os cães:
Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada!
Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!…
Que vidinha!… Um sultão num harem de cadelas!…
A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar?
O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar.
Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno,
Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno!
Um catita!
Acendendo um charuto e indo à varanda:
Perfeitamente! Ora Deus queira
Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira!
Um dia alegre! O tempo muda… ronda ao norte…
Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte,
Desembolados! Inauguro emfim a minha praça:
Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.
O DOIDO, na escuridão:
Ao luzir d'alva semeei de flores
Uma encosta deserta ao pé do mar
Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores,
Açucenas e rosas de toucar.
Ao redor vinha verde e trepadeiras,
Medronheiros, figueiras, romanzeiras…
Lindo jardim! Lindo pomar!
Como no monte não havia fonte,
Desatei a chorar para o regar…
Depois, oh meus feitiços!
Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços
E dez pombais com pombas de luar…
Olha o lindo jardim!… olha o lindo pomar!…
E enxada ao ombro, já raiava a aurora,
Abalei a cantar!…
Foi há mil anos… Venho mesmo agora
De ver a linda encosta à beira mar…
Lindo jardim! lindo pomar!
As açucenas deram-me gangrenas
E os jasmins podridões a fermentar!…
Os cravos deram cravos… mas de cruzes!
E as roseiras espinhos de toucar…
Sôbre as ervas no chão crepitam luzes,
Fogos fátuos de larvas a bailar…
Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos,
Destilando loucura e rosalgar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
Os figos das figueiras são caveiras
E os medronhos são balas de matar…
Oh, que lindas romãs nas romanzeiras!
Corações fusilados a sangrar!…
Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras
Há rosários de dor para eu rezar…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
De dentro dos cortiços, que feitiços!
Voam corvos e c'rujas pelo ar…
E dos pombais, aos centos,
Nuvens de abutres agoirentos,
Que sôbre as romanzeiras vão poisar!…
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
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É de encantar a natureza!… ai que beleza!
Quantas florinhas para a minha mesa!…
Deus, quanta fruta para o meu jantar!…
Lindo jardim… lindo pomar!…
SCENA X
*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.