CIGANUS:
A miséria é lama, é sangue, e é pranto,
A fermentar em crime e em veneno. Portanto
Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la
Contínuamente num porão ou numa vala.
Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério.
O hálito da pobreza imunda é deletério.
De trapos de mendigo e lençóis de vilão
Faz a anarquia flamejante o seu pendão.
Curta distância vai da indigência à rapina,
Da mão que implora à que estrangula e que assassina.
Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar
Na rua aglomerações de ventres sem jantar.
A miséria despeja-a Deus, a Providência,
Do seu vaso nocturno ao saguão da existência.
Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino?
Arredar para longe o excremente divino,
Para bem longe, de maneira que a infecção
Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão…
O REI:
É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!
OPIPARUS:
Comer, beber, dormir, jogar, caçar, dançar!
Festas, Senhor! Muitas e vãs, loucas e várias!
Não há jantar? Função. Não há pão? Luminárias.
A pobreza anda rôta, a canalha anda nua?
Girândolas ao ar e músicas na rua.
A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras?
Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras.
Alegria! gozar! folgar! nada de luto!
Bombas! Salvem canhões de minuto a minuto!
E a cada grito de miséria ou de estertor
O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor.
Dê-se à plebe faminta uma estrondosa orgia,
Um banquete real, monstro,—em scenografia!
Que bela idéa! Armar de improviso um galeão,
—Tábuas, cinábrio, gêsso, andrinopla e cartão,—
Pô-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter,
A côrte dentro, o patriarca, o chanceler,
El-rei de c'roa d'oiro, a raínha taful,
Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul,
Eu ao leme, pendões, músicas, auriflamas,
Bispos e generais, o núncio, arautos, damas,
Com brilhantes a arder em veludo e em brocado,
—Tripulação emfim de baixel encantado,
A navegar de rua em rua, e praça em praça,
Atirando à miséria, à nudez, à desgraça,
A carga inteira a plenas mãos: lôdo em confeitos,
Gargalhadas, sermões de entrudo (alguns perfeitos!)
Drogas de charlatães, ditos de saltimbanco,
Cinza, areia, impudor, fome… e notas de banco!
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E por último a rir sentamo-nos à mesa,
A despejar champagne em favor da pobreza!
O REI:
Despovoa-se tudo!
CIGANUS:
Um êxodo…