OPIPARUS:
Senhor,
Grande mimo de Deus para um rei caçador!
Terra despovoada e morta, sem ninguêm,
É terra inculta. Bem, perfeitamente bem.
Ora uma terra inculta, (é, meu Senhor, um facto)
Não dá vinho, nem pão, nem meloais,—dá mato.
E o mato bravo e as brenhas virgens dão a caça
Com mais fartura, variedade e doutra raça.
Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez,
Andaremos ao lôbo e ao cabrito montês.
Olivedos, vergeis, campos, lezírias, prados
Criarão a raposa, aninharão veados.
E onde hoje há couves e maçãs, El-Rei, feliz,
Galopando a primor, monteará javalis!
Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.
O REI:
Pavoroso!
OPIPARUS:
Ora adeus! nada mais natural:
A fome trás a morte, os mortos cheiram mal,
E o cheirete dum morto, assim dependurado,
Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.
O DOIDO, na escuridão:
Olha as macieiras que maçãs que dão:
Gangrena por fora, dentro podridão!
Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro,
As maçãs escusam de ir ao madureiro…